E se Deus não quiser?
vanita
Não teria mais do que cinco, seis anos, quando me comecei a arrepiar com a despedida nocturna mais comum lá de casa: “Até amanhã, se Deus quiser”. Aquele “se Deus quiser”, deixava-me em pânico. Como podíamos, com sorrisos honestos e de livre e espontânea vontade, deixar nas mãos de entidade desconhecida, nunca vista e com existência ainda por comprovar, a intenção de nos voltarmos a ver no dia seguinte? Tinha cinco anos e não podia saber que esta dúvida levantava questões de livre-arbítrio, fé, filosofia ou até teologia. Mas senti a profundidade do tema e não entendia como é que tanta gente - adultos, ainda para mais - deixava algo tão importante nas mãos de outros. O cunho de carinho evidente na forma de despedida contrasta(va) com a delegação de responsabilidade. E talvez esta seja uma das características mais evidentes da minha personalidade: não delego em ninguém a responsabilidade do que quero alcançar. Da mesma forma que nunca olhei com mais sentimentos do que os de alegria para as conquistas de quem me rodeia. O que queremos da vida depende apenas de nós, está nas nossas mãos. Se Deus não quiser, até prova em contrário, podemos sempre tentar contrariar as suas intenções. Será até amanhã, porque eu quero.
