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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

14
Mar18

É uma armadilha


vanita

Sê curioso, sê original, mostra interesse, dá opiniões, sê verdadeiro. Ninguém gosta de gente consensual, cria o teu próprio estilo, não alinhes em carneirada, nunca tenhas vergonha de mostrar quem és,segue contra a corrente. Tretas! Se fores assim, as pessoas vão odiar-te e ostracizar-te. Vais duvidar da tua sanidade sempre que vires actuar os falsos e cínicos, gente que tem duas caras, que nas costas diz A mas na hora da verdade jura que é B. O mundo é dos maleáveis, não há espaço para colunas verterbrais rectas, ninguém gosta de quem é honesto e usa de franqueza nas suas relações. Se queres sobreviver e ser feliz, não sejas nada do que dizem. Guarda para ti, mantém-te neutro e cinzento, não levantes ondas, nunca questiones o instituído e mostra-te sempre submisso. Só assim serás aceite. Mesmo que para isso te anules. 

11
Mar18

A pão e água. Melhor, só água que o pão tem glúten


vanita

Não sou de fazer dietas, nunca fui. Durante muitos e muito bons anos nem sequer precisei de me preocupar com isso. Era mais que magra: chamavam-me trinca-espinhas na escola, entre outros mimos fofinhos. Mesmo magra, no início dos meus 20 anos, as análises acusavam colesterol elevadíssimo. Como percebi que há toda uma indústria em torno desse indicador não tão consensual quanto isso e, depois de um período hipocondríaco, deixei de me preocupar em demasia com esses números.

Entretanto, a celulite da vida sedentária instalou-se e, para ajudar, a endometriose quis resgatar para si um corpo que era meu. Depois de três operações, deixou de ser. Gorda, inchada, mais pesada, o que quiserem chamar, deixei de ser magra. Ainda assim, apesar de mais atenta ao que comia, as dietas continuavam fora do meu campo de acção. Pior, eu que em criança não gostava de nada, descobri o prazer da comida. Gosto de tudo, tirando favas que ainda não voltei a experimentar e lulas estufadas que me dão náuseas. A minha mãe diz que as enjoou quando estava grávida de mim: talvez a ciência explique. Até de pão passei a gostar.

Mesmo com os protestos da balança, a questão é que a endometriose se intrometeu realmente no caminho. À mudança de corpo, nem sempre tão pacífica como posso estar a fazer crer, junta-se o desconforto - vamos chamar assim que ninguém quer falar em filmes de terror a esta hora - e a realidade entretanto percepcionada: há, de facto, muitos alimentos que interferem com a minha saúde e bem-estar. E, embora tenha tentado fugir o mais que pude, a vida está aos poucos a impor-me uma dieta. E isto até seria fixe se olharmos apenas para os benefícios: melhor qualidade de vida. Mas nunca nada é assim tão simples. Só mesmo por obrigação é que a palavra dieta entra na minha rotina. Porque o meu corpo reclama.

Começa logo com o leite. Nasci intolerante - coisa do diabo há quase 40 anos, ninguém queria crer! - mas achei que podia muito bem continuar a comer lacticínios e produtos sem lactose sem grande preocupação. Bastou uma experiência para perceber que, afinal de contas, é muito provável que o meu organismo nunca tenha aceitado bem o leite. Portanto, leite fora. Pizzas, saladas caprese, leitinho com chocolate ao pequeno-almoço, bacalhau com natas ou tarte de lima? Tudo vetado.

Com este discurso parece que sempre fui inconsciente em relação à comida: não é verdade. Há anos que não bebo refrigerantes e não ponho açúcar no café nem no chá. Mas não é suficiente. O açúcar refinado ajuda à inflamação no corpo e está presente em mais produtos do que gostamos de imaginar. Depois, depois há o glúten, que também não será muito indicado para o meu caso, mas aí estou mais reticente: há uns tempos fiz análises que não me deram como intolerante, por isso, vou com mais calma nesse aspecto. Até porque, convenhamos, tenho fome! E gosto de bolos e de donuts. E, mal dos meus pecados, agora até gosto de pão. Mas isto piora.

Carne? Faz mal, sobretudo a vermelha. E porquê? Por todas as razões e porque os pobres animais são alimentados com rações de soja. Ah, pois, ainda não tinha chegado aqui. A soja é absolutamente proibida, o que exclui logo o vegetarianismo no seu conceito mais amplo. É que a soja tem estrogénios, tudo o que o meu corpo já tem em excesso, e é responsável pelas dores incapacitantes que estamos a tentar evitar. Ah, e sabem o tofu? É feito de soja. E o seitan? De glúten. Começam a perceber o drama? Por exemplo, a Olá tem um novo corneto vegan. É feito com soja... mas estávamos nas carnes. Sobram os peixes. Mais liberados, a verdade é que muitos são criados em cativeiro. E, adivinhem, alimentados com rações à base de... soja.

Portanto, até agora podemos excluir as dietas Vegan e as Paleo, por causa das carnes vermelhas. Sobra pouco, já que o trigo também é altamente desaconselhado. Sem lacticínios, evitando os glútens e as sojas, desaconselhadas as carnes, sobra pouco. Se pensarmos que o café também faz parte da lista de alimentos a evitar, chega a ser desesperante. Sempre consciente que alimentos processados são como veneno. Há dias em que parece que sobra apenas àgua, mas tenho feito boas descobertas e, obrigada, lá vou introduzindo a palavra dieta no meu dia-a-dia. Ando nesta luta, uns dias mais consciente e noutros a pagar pelas infrações, vou tentando reeducar-me em termos de alimentação.

07
Mar18

Dia da mulher... pois!


vanita

Amanhã é dia da mulher e isso só acontece porque me estou a contorcer de dores por causa do período e ainda não me é permitido dizê-lo assim, com esta franqueza e à-vontade. Quantos de vocês se arrepiaram quando leram que estou com o período? Pois, ainda é o maior dos tabus. As mulheres andam nesta luta inglória de conseguir ter direitos profissionais iguais aos homens, sem ter ganho os mesmos privilégios que eles em relação à casa e aos filhos, e enquanto fazem esta ginástica que as está a matar aos poucos, continuam naquela loucura de fingir que o mundo é cor-de-rosa como no tempo das fadas e dos unicórnios. Não há dores, não há cansaço, a maternidade é uma dádiva e somos todas princesas sem cheiros nem flutuações de humor. Não é verdade, somos seres humanos de segunda. Porque, damos à luz todos os homens que por aí andam, mas há que Deus que somos seres inferiores, que não podemos ganhar tanto como eles e devemos provir para o seu bem-estar garantindo que têm cama, mesa e roupa lavada. Se nos dá para isto de competir por lugares de destaque profissional, há apenas uma certeza: será sempre trabalho de menor qualidade e, obviamente, remunerado de acordo com essa verdade. A luta das mulheres é universal mas esqueçam lá que, por estarmos na Europa e num país civilizado, o 8 de Março serve apenas para marcar jantares com amigas, receber presentes dos namorados e usufruir de massagens e vouchers de maquilhagem. Enquanto precisarmos de esconder a mais básica das realidades, enquanto tivermos de aguentar as dores como se não existissem porque há coisas de que não se fala, minhas senhoras, enquanto assim for, que se continue a lutar. Porque as mulheres merecem poder dizer que estão a sofrer sem serem diminuídas ou prejudicadas por isso. É uma luta de todos.

05
Mar18

Somos pouco


vanita

Na vida, o mais difícil é aceitar que somos menos aos olhos de quem nos vê. Menos inteligentes, menos perspicazes, menos capazes, menos adultos, menos sociáveis, menos amigos, menos tudo. Na vida, as provas mais exigentes são o engolir de cada um desses sapos. Reconhecer a incapacidade de mudar realidades que não nos pertencem e, ainda assim, conseguir seguir em frente. Mesmo quando essas verdades nos dilaceram e ferem como aguilhões apontados ao coração. É na gestão desse segundo em deixamos de respirar que acabamos por nos definir. Quanto mais aceitamos, mais experiência ganhamos. Não se torna mais fácil, mas ajusta-nos aos nossos limites. O nosso valor encontra-se numa equação que fica cada vez menos complicada. Mas mais inacessível para quem se recusa a ver.

26
Fev18

11 anos


vanita

Tinha um Nokia de concha, que sempre odiei. Comprei-o para substituir o 6110 que me roubaram numa noite no Bairro Alto. Esse, sim, tinha lá guardadas todas as mensagens importantes do momento mais difícil da minha vida. Além de tudo o que tinha aprendido nos últimos meses, ainda tive que saber superar a perda física de momentos que já passaram. O primeiro iPhone tinha sido apresentado há pouquíssimos meses e eu ainda não tinha percebido para que raio é que aquilo servia: mais um brinquedo a centenas de euros para preencher vidas vazias.

Usava-se o Hi5, a primeira rede social a servir de fonte de informação para alguns jornais. Chegou a fazer manchete no 24horas. Onde é que anda agora o Hi5? No mundo obscuro da internet. Ninguém sabe, ninguém quer saber. O atento mundo profissional do digital discutia a substituição dos blogs pelo microblogging, consubstanciado no Twitter. Uma reviravolta que nunca chegou a acontecer em Portugal.

Apesar dessa discussão, os blogs estavam a dar os primeiros passos: era web 2.0. A interacção do utilizador com o leitor, numa medida nunca antes vista. Havia um programa de rádio que se dedicava a conhecer os bloggers por detrás desses tais primeiros blogs. Ansiava por apresentar o meu: nunca aconteceu. Mas fui convidada para ir à TVI por causa de um texto que aqui escrevi. Não entenderam nada. Acharam que tinha dito o oposto do que estava a escrever. Recusei o convite.

Usava-se o MSN para comunicar e, ainda sem o advento do FB, as linhas de status eram do mais divertido que podia existir. Mensagens directas e indirectas, comentários passivo-agressivos, havia de tudo.

O meu carro era o meu primeiro carro, em terceira ou quarta mão. Um Twingo bordeaux, que me levou ao sudoeste pela primeira vez, ao Gerês, a Pitões das Júnias, com passagem por Espanha, ao Minho e sei lá mais quantos sítios. Libertou-me finalmente da prisão dos transportes públicos para ir ver os meus pais ao fim-de-semana.

Tinha um computador portátil Asus, novo a estrear. Durante anos fiz selfies minhas com a câmara - ainda não se chamavam selfies - e adorava ver a minha própria evolução. Deixei de usar esse computador e nunca recuperei as fotos. Lá está, a prática do desprendimento que aprendi com o telemóvel.

Trabalhava há tantos anos no mesmo sítio que acreditava que a minha vida nunca mais ia mudar, que ia ficar ali para sempre. O para sempre não existia, era apenas o presente. Tinham-me diagnosticado um cancro meses antes: perdi a eternidade aos 27. Foi numa noite assim, no quarto alugado onde assistia aos Óscares, que nasceu a Caixa dos Segredos. Dura até hoje e já tudo mudou.

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