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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

13
Fev19

Náusea de dor


vanita

O tecto do quarto  gira ao encontro da tijoleira do chão, mesmo ali ao meu lado, na cama. Uma ameaça de vómito sobe pela espinha e o rubor chega junto da nuca, onde o pânico se mistura com o mal-estar e o medo de desmaiar. A angústia da dor aliada ao luto pela idade que me é roubada. Respiro tanto mais do que já vivi, sou uma velha enclausurada num corpo estragado que devia ser ainda jovem, um corpo que esconde o mal que me faz dia após dia. Sem amigos, isolada, sem energia ou capacidade de resposta, lamento a dor mas nunca baixo os braços. Quem não está não faz falta. Por mais que doa, nada dói mais que os espasmos que só encontram algum sossego na posição fetal onde, numa névoa agonizante, assisto ao encontro do tecto com a tijoleira do chão. São dias febris, duros e de muita solidão, estes em que sou grata por quem me ampara. Vale tudo por eles. Por quem não me esquece, por quem me ama.

06
Fev19

There’s no way back


vanita

Os Nirvana estiveram em Cascais há 25 anos, a faculdade também já foi há mais de duas décadas e nada me irrita mais do que esta incapacidade de dar vida a este blog. Tenho tanto que gostava de escrever mas, sempre que me aventuro em mais um tema ou num texto mais arrojado, penso que já não tenho nada de novo a acrescentar a este espaço. São quase doze anos de partilhas. Já disse tudo o que tinha a dizer vezes suficientes, das mais diversas e mirabolantes formas, em diferentes estados de maturidade e experiência. Que mais posso eu acrescentar quando sinto que apenas me repito e, ainda por cima, sem a originalidade de tantos textos que me orgulho de aqui ter arquivados. Não sei se me morreu a criatividade, o interesse ou o à vontade, mas sei que a inércia leva pontos de vantagem e vejo-o como um fracasso. Gostava de largar as amarras e escrever sem filtros, desempoeirada e sem medo de me expor, mas algures num passado não muito longuínquo deu-se um clique que parece não ter retorno. Estou demasiado consciente de quem sou, de quem me lê e, pior, das ideias que posso transmitir a terceiro sobre mim por dar azo à escrita de tudo o penso ou me passa pela cabeça. Chego a olhar com admiração para a coragem e valentia com que por aqui sempre fui dizendo o que penso. Não sei onde é que isso se perdeu, mas é como se tivesse perdido uma parte importante de mim. Gostava de voltar a ser como era mas receio que, a acontecer, nunca mais será o mesmo. É como esta coisa de envelhecer. Estamos sempre a mudar e não há caminho de volta para o que já passou. Como aquele concerto dos Nirvana em Cascais. 

27
Jan19

Da candura


vanita

Vejo fotos antigas desta escritora e o ar austero e de dama de ferro adivinha-se na dureza de um olhar que nem a lente atenua. Margaret Drabble foi uma mulher de convicções e ideias bem rígidas, consegue perceber-se. Mas não foi esta Margaret Drabble que esteve em Lisboa a promover o seu primeiro livro traduzido para português. À beira dos 80 anos, esta escritora inglesa rouba-nos o coração pela candura com que fala. Os olhos são meigos e tristes, bem diferentes do que se vê nas fotos de outros tempos. Margaret Drabble perdeu uma das filhas há pouco mais de ano e meio. Morreu de cancro e a sua partida apunhalou esta mãe com o pior dos pesadelos. Depois de se perder um filho, nada de pior pode acontecer. Um desgosto que afecta tantos pais que, sem hesitar, trocariam a vida pela dos filhos perdidos. Toda aquela arrogância e sede de agarrar o universo se desvanece na mais universal das perdas, humanizando quem a sente bem fininha a trespassar o coração. E se aprendêssemos a lição da candura, baixássemos as armas e déssemos o nosso melhor antes que um desses solavancos da vida nos atire borda fora sem aviso prévio? 

19
Jan19

De olhos no chão


vanita

É um homem alto, já a entrar numa idade de cuidados, mas ainda robusto e bastante ágil. É um homem inteligentíssimo e culto, um saber reconhecido pelos pares. É também um homem distraído, que por vezes, tropeça e cai do alto dos seus quase dois metros. “Eu habituei-me a olhar para a frente enquanto caminho”, explica, tornando quase instantaneamente ainda mais alto ao dizer estas palavras. “Ele é distraído”, completa a mulher, já sem ele ouvir: “Um dia destes resolveu ir conversar com os senhores das obras e andava por ali sem olhar para onde punha os pés. Tinha de o estar sempre a interromper para o avisar de uma mangueira, de um ancinho. Ainda não se tinha desviado de um, já se estava a meter noutro porque, lá está, ele não olha para o chão”. Olhando para o porte altivo mas simpático daquele homem tão culto, rapidamente formulei uma teoria de chapa cinco sobre a postura que assumimos perante a vida e o lugar onde acabamos por chegar. Condenei-me por, com apenas metro e meio, ter sempre o cuidado de ver por onde piso. Nem de propósito, mais tarde, enquanto corria para o comboio, salvei o dia a um rapaz que, tendo-se levantado do banco onde estava para subir para a carruagem, nem se apercebeu, mas deixou cair a carteira com todos os cartões, documentos e dinheiro que tinha. Enquanto lhe devolvia a carteira, não pode evitar um sorriso ao lembrar-me quando há uns anos encontrei mais de trezentos euros no chão. Nesse dia não consegui descobrir o dono. O que me leva a mais uma teoria de chapa cinco, a de que, afinal, de teorias está o mundo cheio. E vocês, quando andam olham para o chão ou olham em frente? 

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