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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

07
Set17

Reclamar, pois então!


vanita

Tinha pouco tempo para almoço e não tinha conseguido arranjar marmita. Às onze da manhã, encomendei uma salada numa conhecida empresa de entrega de pizzas, com pedido para entrega às 13h00. Eram 13h35 quando a alface mal enjorcada aterrou em cima da minha mesa. Perante a minha pergunta pela razão da demora, recebo uma resposta irónica: "Quer que leve para trás e traga outra?". Assim mesmo, com um ar sério a esconder a petulância. Reclamei, claro.

Nos dois dias seguintes, tive de relatar isto várias vezes. Uma por cada um dos mil telefonemas que recebi da comissão que trata da imagem da marca de pizzas. Foi mal atendida? Que horror, conte-nos o que aconteceu. E eu contei. Uma, duas, três, seguramente mais de quatro vezes. No final disseram-me que teria direito a 50 por cento de desconto no próximo pedido. Já o fiz e optei por não fazer uso dessa benesse. Teria muito que explicar e seria cansativo.

Curiosamente, nesse mês, fui abordada pela oficina do carro para agendar a revisão. E eu, que sim senhor, que grande ideia, estava mesmo a pensar nisso. Já agora, aproveitava a viagem e fazia a reparação de um sinistro já pago à vossa empresa, que tem ficado esquecido há quase um ano, aí nos vossos ficheiros. Com certeza, tratamos já disso. Em menos de nada, o responsável pelo departamento de sinistros liga e agenda - quase sem hipótese de escolha - para o fim do mês. Mas olhe, alerto com bastante assertividade, quero conciliar isso com a revisão e inspecção do carro. Pois, claro, os meus colegas vão ligar para tratar disso.

Durante três semanas enviei mails e fiz telefonemas. Nunca obtive qualquer resposta, nunca me atenderam o telefone. O dia de reparação chegou sem que me voltassem a responder quanto à revisão, a verdadeira razão pela qual me ligaram inicialmente. Lá deixámos o carro e, que remédio, agendámos a revisão para data posterior. Tudo certo, até começarem os telefonemas de avaliação. Esses nunca falham, certo? Então porque é que nos atribui o valor de quatro se pode dar-nos até dez valores pela prestação do serviço. E vá de relatar este relambório todo várias vezes. Duas vezes na mesma manhã, três vezes, quatro vezes. Sabe, é que aqui no relatório da minha colega não temos acesso a todos os caracteres e não conseguimos entender o que se passou. E eu explico, pela milionésima vezes. As vezes todas que me pedem. Com poucos minutos de diferença entre os vários telefonemas. Pedimos imensa desculpa, tivemos uma anomalia nos mails. Ah, e nos telefones também. Ok, ok, só queria que deixassem de me ligar por causa disto, estou a tentar trabalhar. Quando quis que me atendessem o telefone nunca tive sorte. Tem toda a razão. Vou-lhe só pedir que, no fim deste telefonema, responda a um inquérito que lhe vão fazer sobre a minha prestação nesta chamada. Tenham a santa paciência, mas não. Tivessem o mesmo empenho no atendimento aos clientes que põem na notoriedade da empresa e nem sequer aqui estaríamos.

05
Set17

Precisamos de recomeços


vanita

Bem melhor que o gélido Janeiro, Setembro chega cálido e envolto em promessas que se esfumam nas suaves memórias dos dias longos de Verão. Secretamente, abraçamos com saudade a rotina do desconfortável assento do que é mecânico e conhecido. É bom regressar aos dias iguais e sem surpresas. São o que mais falta nos faz quando perdemos o pé ao ciclo da vida. Precisamos de recomeços, para nos agarramos ao (in)certo.

03
Set17

Já lá vão cinco anos


vanita

Pensei que era um intervalo, um interregno até desejado. A vida de jornalista é exigente e muito cansativa. Há cinco anos já não trazia muita realização e abracei a novidade com apreensão - nunca quis abandonar as redacções - mas com a certeza de que novas experiências são sempre benéficas e iria tirar o máximo proveito disso. Troquei o jornalismo pela assessoria de imprensa - oh, sacrilégio. Mas nunca imaginei que cinco anos depois ainda não tivesse voltado a renovar a carteira de jornalista. Profissões irmãs que são incompatíveis, pelo menos de lá para cá, que é como quem diz, do jornalista para o assessor, já que este não pode fazer o seu trabalho sem redacções. "Pensa nisto como uma fase. Daqui a dois anos ou três estás de volta", disse-me um veterano dos jornais. E eu acreditei que podia ser assim. Não foi e é com o coração partido que percebo que dificilmente será: o volume de vendas e o anúncio de fecho de títulos de imprensa é tudo menos animador. Já todos perceberam que é necessário mudar o paradigma da comunicação social mas ainda há muito ruído quanto ao caminho a seguir. E aquilo que era um intervalo para mim, tem sido bastante elástico a albergar cada vez mais colegas. Éramos poucos, passámos a alguns e agora estamos quase todos do outro lado da barricada. Gente talentosa e com ambição, jornalistas criativos e provas dadas, a crise que afecta a imprensa não poupa ninguém. E enquanto isso, conto cinco anos de intervalo. Até quando?

01
Set17

O que fazer com este blog?


vanita

Noventa por cento dos meus leitores são leitoras. Mais de 70 por cento são visitantes recorrentes e, o que mais me espanta, a grande maioria tem entre 35 a 44 anos. Velhas, penso eu. E depois percebo que são da minha idade. Quase 60 por cento das pessoas que se dão ao trabalho de ler o que aqui escrevo são meninas que já por aqui param há algum tempo. Apenas 40 por cento tem entre 25 e 34 anos, que era a faixa etária onde eu estava quando comecei esta aventura. Pelos vistos, já nada do que tenho para dizer interessa aos mais novos. O mundo dos blogs mudou tanto desde aqueles meados da primeira década dos anos 2000 que praticamente nenhum dos blogs que mais gostava de ler está activo. Salvam-se honrosas excepções, que espero que assim se mantenham. Mas o público descobriu os blogs de ouro. Especializaram-se, deram a cara, assumiram uma edição cuidada e pensada para o leitor e eu, por escolha própria e consciente, não alinhei nisso. Actualmente, os blogs dividem-se por categorias: lifestyle, crianças, cinema, política, fotografia, cozinha, o que quer que seja. São produtos de marketing, pensados e dirigidos para mercados específicos. Não há cá desta coisa de se escrever apenas porque sim. Melhor: há, mas fica apenas no quintal de cada um. E o meu quintal são as miúdas da minha idade que ainda por cá costumam passar. Por hábito, quem sabe. Nada mais. E eu tenho cada vez menos a dizer. Não gosto que me julgem e, sabendo que o fazem, prefiro que tenham pouca lenha para alimentar o fogo. Opiniões, histórias pessoais e ideias mirabolantes que me passam pela cabeça, ficam no crivo cada vez mais apertado que - sem que o tenha previsto - imponho a mim mesma antes de publicar. Surge a pergunta, sem resposta: o que fazer com este blog? 

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