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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

01
Mai13

Do que se leva desta vida


vanita

Há minha frente um casal de 60 anos almoça com uma senhora de cerca de 40. Claramente debilitada, magra e com aura de infelicidade, a companhia do casal nunca abre a boca ou, se o faz, mal se ouve. Mas o chefe de família fá-lo com convicção por duas vezes. Da primeira pergunta se o prato que a senhora de 40 está a comer é saboroso, porque tem bom aspecto. Quando ouvimos a sua voz pela segunda vez, diz, com voz firme de comandante enternecido: tens companhia para almoçar, tens companhia para ir ao teatro, tens companhia para ir ao cinema. Não sei a história que os une, mas sei que a levam ao colo. A esta senhora, que mal consegue levar a colher à boca.
01
Mai13

19 anos


vanita

Era domingo, eu tinha 16 anos, ele ficou-se pelos 18 desse dia. Passaram-se mais anos do que aqueles que ele viveu. Um dia que, como tantos e tantos outros, marcou a vida de muitos mais do que eu. E, no entanto, não passam 365 sem que me recorde. Mudou tudo desde então. Muitos morreram também, já depois da inocência de perceber que os mais novos perdem a vida tal como quem completa o ciclo natural, mas será sempre esta a perda que recordo quando penso no que é sofrer a perda de alguém. Foi orgânico e doloroso, marcou-me para sempre. Chorei sem filtros e nem percebi que havia tanta gente a ver. Dobrei-me à injustiça da morte e deixei-me ir nessa angústia. Nunca mais o repeti com essa intensidade, nem quero. Mas sei que é isso o que se sente quando se está de luto, por muito que se aprenda a fazê-lo de forma mais contida e discreta. E, no entanto, é o facto de ter passado mais do que uma vida do tamanho da que se perdeu que me dói agora. Porque, feitas as contas, já vivi duas, pelo menos. Sei que é verdade porque não me reconheço nem sei agora, como parecia então saber, definir quem sou. Não tenho as convicções de outrora, mas acredito que assimilei formas de estar que me protegem do mundo a que sempre me entreguei sem medos, acabando por sofrer as consequências de uma postura franca e aberta, sem subterfúgios. Passaram 19 anos, mais do que uma vida, e sinto que ainda não sei nada. Este será sempre um dia triste.

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