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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

12
Set20

Seis meses de pandemia


vanita

DC15BDC4-E785-45F4-9EB7-478689F63608.jpegHá seis meses o país fechava como até então não havia memória. De um dia para o outro, trancámos as portas de casa e, durante meses, aprendemos a viver uma realidade onde o medo impera. Há seis meses, houve quem não tivesse ficado em casa: médicos, enfermeiros, cuidadores e muitos trabalhadores de profissões essenciais para o bem-estar comum. Entre esses encontram-se os funcionários dos lares de idosos e do apoio domiciliário. Com um vírus que afecta sobretudo a terceira idade, o trabalho destes profissionais assume especial importância e um grau de complexidade que, quem não lida com isso no dia-a-dia, não consegue abarcar. Há seis meses, estas pessoas saíram para a rua em cidades e aldeias fantasma, povoadas apenas pela doença invisível que ninguém podia adivinhar onde se escondia. Levavam cuidados de higiene, banhos e comida a quem não tinha mais quem lhes valesse. Levavam amor e carinho embrulhado em medo pelo desconhecido e pelos que deixavam em casa, à mercê do que podiam trazer no regresso. Não baixaram os braços e continuam, até hoje, a garantir, como sempre, que os mais velhos têm dignidade a cada dia que passa. São funcionários que têm a coragem de entrar onde outros se recusam a ir, que ganham salários miseráveis e que não estavam incluídos em tantas palmas se bateram. São funcionários de quem não se fala porque ninguém sequer tem noção do seu trabalho ou existência. São pessoas responsáveis, sérias e que merecem o reconhecimento do esforço sobre-humano que têm feito nestes seis meses de pandemia e assim vão continuar pelo tempo que for preciso. A minha mãe é uma dessas pessoas. Que nos próximos seis meses haja mais condições e respeito para com estes e todos os profissionais que, mesmo exaustos, nunca baixam os braços. Devemos-lhes isso.

14
Jul20

Ladrão de sonos


vanita

Cruzava as pernas para não dormir em posição de cadáver. Ficou. Ainda hoje faço isso quando me deito de costas, mãos propositadamente não cruzadas em cima do peito. Sempre foi um suplício ceder ao sono. Adormecia por cansaço a olhar fixamente para as cortinas do quarto, a luz de cima acesa. Não havia luzes de presença mas eu já ansiava por esse conceito. Fechar os olhos era o mesmo que apagar a luz. Era ceder à escuridão, dar rédea solta ao desconhecido, perder o controlo do que me podia acontecer. Quarenta anos depois continuo a ser essa menina que, absorta de cansaço, luta para se manter acordada. Por medo do escuro, dizia eu, que só sabia dizer que era por medo que um ladrão me apanhasse. Mas que ladrão se ninguém entra cá em casa, prometiam os adultos. E eu sem saber dizer que esse ladrão entrava na minha cabeça assim que fechava os olhos. Deixava de ver o que me podia acontecer e isso para mim era uma prisão. Porque não me deixava dormir. Era por isso que dormia, quase em hipnose, quando os olhos se cansavam de fixar as cores e texturas do cortinado. Não era para lá que eu olhava. A minha missão era assegurar-me que, se a janela se abrisse, eu não era apanhava desprevenida. Ainda hoje não consigo dormir de costas para a porta, seja ela qual for. E se alguém entra? Não é medo do escuro, é impedir que o ladrão entre. Enquanto isso, o sono é-me roubado. Desde sempre.

08
Jun20

Melhores amigas


vanita

Hoje é o dia das melhores amigas e, de repente, apercebo-me do que já sabia mas que, agora, assume maior dimensão: não tenho melhores amigas. Tenho amigas, pessoas em quem confio e com quem sei que posso contar. Pessoas que sabem que têm em mim um apoio inquestionável sempre que é preciso. Tenho essas pessoas na minha vida e, talvez por isso, o facto de não ter “melhores amigas”, apesar de desolador, não me deprime. Nunca gostei da distinção entre amigos. Conheci quem tivesse amigos verdadeiros e os outros. Só a alusão causa-me arrepios. Não gosto de gavetas. A possibilidade de errar impede-me de categorizar as relações sem deixar portas abertas. Preciso de espaço para crescer e evoluir sem fronteiras predefinidas. Há amizades que crescem e que definham, outras há que se esfumam, há pérolas que se descobrem com o tempo. As possibilidades são infinitas. É por isso que não tenho melhores amigas. Vou tendo. Sei com quem posso contar e, se em determinado momento não puder, não me deixo contaminar pela amargura. Faz parte, a vida é mesmo assim, feita de encontros e desencontros, altos e baixos. Não é um drama, apenas um rio que corre. Talvez tenha sido essa uma das (muitas) razões por que não quis damas de honor no meu casamento. Lá seria capaz de hierarquizar as minhas amigas? E a maldade que é fazê-lo? Quão cruel pode ser um gesto desses se, do outro lado, fica alguém que, naquele momento, nos quer mais do que considerámos na altura? Amigas são amigas. Todas têm um espaço importante, cada uma à sua maneira, cada uma com uma parte de mim que é só delas. Poder-se-ia dizer que esta forma de ver a vida é um tratado de amizade, claro. Mas não retira aquela pequena pontada de admitir que não, não tenho melhores amigas. 

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