Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

17
Jan21

De volta ao confinamento - a revolta


vanita

Não, não vai ficar tudo bem. Não está tudo bem. Quase um ano depois, há áreas de negócio que ainda não voltaram a abrir portas, pessoas que viram o seu sustento de vida aniquilado e continuam à espera de uma solução que não vai aparecer tão cedo. Esqueçam os arco-íris e as frases positivas de motivação. O desespero e a desorientação estão na ordem do dia. Vê-se nos grupos de pessoas que passeiam nas ruas sem respeito pelas regras de confinamento ou de higiene respiratória. Ouve-se no burburinho quase ensurdecedor que revela negócios a funcionar por trás de portas semi-cerradas para garantir o sustento das famílias, por “direito à resistência” ou por falta de um rumo que não se distingue no horizonte. Há revolta no ar. Uma revolta que se insurge de braço dado com o caos que se entrevê nos hospitais. As luzes das ambulâncias em fila pintam o cenário com a cor do desgoverno incontrolável. Percebe-se que o pior ainda está por vir. Ao mesmo tempo,  há quem assobie para o lado e negue uma realidade de que não podemos fugir. Duas faces de um mesmo confinamento, que nada tem a ver com a quarentena de 2020. É urgente acordar.

18
Nov20

Estou cansada de pessoas


vanita

Porque eu fiz, eu pensei, eu acreditei, eu lutei. Se não fosse eu, as minhas ideias e as minhas opções. As minhas circunstâncias. Estou cansada de tanto ego, de tanta gente única e insubstituível. Pobre de que nunca é apenas eu, pobre de quem, de certeza, não pensa, não acredita nem luta. Que vidas vazias devem ter esses pobres sem ideias, nem convicções. Gente que não se destaqua pela sua individualidade ofuscante. Como é limitada a vida de quem a vê apenas pelo prisma do próprio umbigo. E são tantos que chegam a lançar a dúvida nos que vêem para lá do seu pequeno mundo.

06
Nov20

É possível crescer sem cortar amarras?


vanita

Um dos grandes mistérios desta vida é o elo que nos liga aos outros seres humanos. Não faltam justificações e teorias, umas mais elaboradas que outras, para tentar explicar a linha invisível que junta duas pessoas seja pela cumplicidade, amizade ou amor. Dizem que acontece em poucos segundos mas também é sabido que as relações são voláteis e não estanques. Evoluem tal como todos os seres humanos, que crescem ao sabor do que vão vivendo. E se a conquista ou descoberta de novos laços nos enche de amor-próprio e alegria por nos sentirmos compreendidos e acolhidos, a quebra dessas ligações pode ser motivo de angústia, mesmo quando entendemos que as mesmas deixam de fazer sentido. Perder um elo de ligação pode ser encarado como uma derrota pessoal, como o reconhecimento de que, algures no nosso percurso, algo que era real e verdadeiro foi traído. Também pode ser sinal de uma mudança benéfica que, inevitavelmente, deixa destroços no caminho. Idealmente, é apenas disso que se trata, ainda que, dependendo do grau de ligação que se desfaz, a dúvida não deixe de nos atormentar. Poderia ter sido diferente? 

08
Out20

2020


vanita

Usei uma máscara respiratória pela primeira vez em janeiro deste ano. Mal podia imaginar que passaria a ser um objecto do quotidiano para o resto do ano. Fiquei doente, tinha febre, tosse e falta de ar, algumas dores de garganta. Foi diagnosticado como infeção respiratória, assim mesmo, genérica. Tomei dois antibióticos e voltei para o trabalho sem estar totalmente curada. Duas ou três semanas depois participei no festival de literatura, Correntes d’Escritas, onde também esteve o escritor Luis Sepulveda. Valeu-me um bilhete para uma das primeiras quarentenas em teletrabalho num país que ainda não tinha acordado para o drama da covid-19. Regressei ao escritório e, uma semana depois, estava de volta a casa para o isolamento oficial que fechou o país e o mundo. Tive a sorte de não ficar em layoff mas ia cedendo à pressão do teletrabalho. As tais 24 sobre 24 horas sempre disponíveis dão cabo da sanidade mental de qualquer um. Em junho fiz o desconfinamento, munida de máscaras e álcool gel, e anseiei pelas férias de agosto como se de um balão de ar se tratassem. Fui recebida com uma das piores notícias da minha vida e das tais férias só me lembro de uma angústia sem tamanho que me deixou totalmente apática. Quando dei por isso, estava na Feira do Livro em trabalho e, num piscar de olhos, já dava entrada na sala de operações para uma cirurgia pouco simpática. Quinze dias depois, o meu coração ansiava por notícias de um familiar que também foi conhecer o bloco operatório. Este ano, o meu aniversário chega no rescaldo de meses muito duros, como têm sido os meses de todos. 2020 não dá tréguas mas, caramba, de vez em quando temos de nos impor e (tentar) sorrir. Que termine rápido e deixe poucas lembranças. Ainda assim, hoje e amanhã, são dias de festejar.

12
Set20

Seis meses de pandemia


vanita

DC15BDC4-E785-45F4-9EB7-478689F63608.jpegHá seis meses o país fechava como até então não havia memória. De um dia para o outro, trancámos as portas de casa e, durante meses, aprendemos a viver uma realidade onde o medo impera. Há seis meses, houve quem não tivesse ficado em casa: médicos, enfermeiros, cuidadores e muitos trabalhadores de profissões essenciais para o bem-estar comum. Entre esses encontram-se os funcionários dos lares de idosos e do apoio domiciliário. Com um vírus que afecta sobretudo a terceira idade, o trabalho destes profissionais assume especial importância e um grau de complexidade que, quem não lida com isso no dia-a-dia, não consegue abarcar. Há seis meses, estas pessoas saíram para a rua em cidades e aldeias fantasma, povoadas apenas pela doença invisível que ninguém podia adivinhar onde se escondia. Levavam cuidados de higiene, banhos e comida a quem não tinha mais quem lhes valesse. Levavam amor e carinho embrulhado em medo pelo desconhecido e pelos que deixavam em casa, à mercê do que podiam trazer no regresso. Não baixaram os braços e continuam, até hoje, a garantir, como sempre, que os mais velhos têm dignidade a cada dia que passa. São funcionários que têm a coragem de entrar onde outros se recusam a ir, que ganham salários miseráveis e que não estavam incluídos em tantas palmas se bateram. São funcionários de quem não se fala porque ninguém sequer tem noção do seu trabalho ou existência. São pessoas responsáveis, sérias e que merecem o reconhecimento do esforço sobre-humano que têm feito nestes seis meses de pandemia e assim vão continuar pelo tempo que for preciso. A minha mãe é uma dessas pessoas. Que nos próximos seis meses haja mais condições e respeito para com estes e todos os profissionais que, mesmo exaustos, nunca baixam os braços. Devemos-lhes isso.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D