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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

05
Abr21

À procura da manhã clara


vanita

Nós, os filhos que Zeca Afonso chamou da madrugada, nascemos e crescemos em Liberdade e, até à pandemia de 2020, ainda não tínhamos sofrido na pele as agruras de um desafio maior. Não fomos à guerra, tivémos a sorte de nos ser garantida uma educação escolar mínima e, até, de sermos os primeiros de muitas gerações a ingressar no ensino superior em algumas famílias. Fossem só rosas e seríamos uns mimados. Mas nós, os filhos da madrugada, também somos os inauguradores dos estágios curriculares e trabalhos de borla anos a fio até conseguir um, prometido e poucas vezes conseguido, lugar no quadro empresarial. Foi a nós, aos filhos da liberdade, que se prometeram vidas nunca conquistadas, salários nunca alcançados, promessas sempre veladas. Os empréstimos sem juros nem obrigações chegaram antes de nós. Quando foi a nossa vez, sem rendimento fixo, nem valores que permitissem deixar as marmitas em casa ou trocar os transportes públicos por um carro próprio, tivémos que nos arrastar em quartos alugados, nunca nossos, ou quedar em casa dos pais até ao limite do absurdo. As tais carreiras ambicionadas geraram uma dedicação profissional ao nível yuppie que hipotecou vidas familiares, sempre adiadas. Com vencimentos aliciantes apenas para as entidades patronais. Aos filhos da madrugada não foi assim tão simples ter filhos, muitas vezes sinónimo de abdicar da carreira para a qual foi incentivado o estudo. Quantas vezes a emigração foi a solução? Tivémos a sorte de nascer e viver em Liberdade toda a nossa vida e, até à pandemia de 2020, não tínhamos sido marcados por um desafio maior. Mas, muito antes disso, apesar de circunscritos à casa dos pais ou arrastados em situações precárias, talvez por isso mesmo, já mostrámos a nossa garra. Ganhamos pouco, não temos progressão de carreira nem que passem vinte anos de experiência, os bancos trucidam qualquer sonho que nos passe pela cabeça e a vida família só tem lugar numa alucinante equação em que só os patrões podem sair a ganhar. Sim, somos filhos da madrugada, mas nunca encontrámos a manhã clara.

08
Mar21

Sobre isto de sermos iguais


vanita

O mundo começa a mudar aos poucos quando, ainda crianças, percebemos diferenças. Parecem irrevelevantes à partida, mas são estranhas e, apesar de, logo ali, nos perguntarmos porquê, não nos resta outro remédio se não aceitar. É a menina que ajuda a mãe na lida da casa e não percebe porque é não se tenta ensinar os irmãos com o mesmo empenho, é o pedido encarecido para que se seja sempre mais bem-comportada, responsável e recatada, quando a bitola é tão mais lassa com os rapazes. É a proibição de sair à noite sem um adulto responsável, e nem sequer ponderar a ideia de chegar depois da hora estipulada, menos ainda com sinais visíveis de uma boa rodada. Pequenas diferenças que nos acompanham durante a vida. Quando começamos a trabalhar e reparamos que o  salário mais do que a nossa competência reflete o nosso género. É percebê-lo quando um colega acabado de chegar à empresa tem uma progressão profissional de um cometa, apesar de não dominar os princípios básicos do ofício e de estar a anos-luz de tudo o que as colegas fazem com uma pernas às costas. É perceber como a sociedade incentiva as mulheres a trabalharem até ao último momento quando engravidam, como se só assim fossem dignas de valor. É viver todos os dias como se em nenhum deles houvesse dores menstruais e fingir sempre que essa realidade não existe, como se fizesse parte dos livros de ficção científica, com todos os sacrifícios que isso implica. É anularmo-nos enquanto tentamos provar ao mundo que somos mães de excelência e boas profissionais, tudo ao mesmo tempo, naquilo que um dia vai ser encarado como uma das maiores atrocidades que se cometeram nesta insane luta por um papel de relevância na sociedade. É nunca dar parte de fraca, sobretudo junto dos homens, sob pena de sermos ainda mais desvalorizadas. É engolir os insultos, esconder as atrocidades e fingir que está tudo bem quando não está. Enquanto estas pequenas diferenças continuarem a fazer parte das nossas vidas, o caminho pela igualdade ainda não está percorrido. 

03
Fev21

Que livro estão a ler?


vanita

Repitam comigo: que livro estão a ler? Depois, façam o exercício de fazer a pergunta às pessoas com quem se cruzam: que livro estão a ler? Cinco palavras. Tão simples. E com esta pergunta abre-se todo um universo. Mais do que um universo, tantos que são incontáveis. É este o poder dos livros. Sempre assim foi e esse é o segredo da sua longevidade. Os livros e as histórias que encerram nas suas páginas acompanham os leitores desde a criação da palavra escrita e são um objecto unificador de gerações entre os séculos. Dentro daquelas páginas escondem-se histórias de amor e aventura, tratados de paz e de guerra, conhecimentos de filosofia e ciência e toda uma infinidade de textos que alimentam um número ainda maior de leitores. De todos os quadrantes. Livros e temas que, com uma simples pergunta, aproximam ou afastam interlocutores. Muito do que somos reflete-se no que lemos ou escolhemos ler, muito do que aspiramos ser está acessível à distância de um livro. É esta a importância da leitura. Abre novos mundos e expande conhecimentos. De forma democrática e acessível, num caminho sem retorno. Basta querer e começar a ler. 

17
Jan21

De volta ao confinamento - a revolta


vanita

Não, não vai ficar tudo bem. Não está tudo bem. Quase um ano depois, há áreas de negócio que ainda não voltaram a abrir portas, pessoas que viram o seu sustento de vida aniquilado e continuam à espera de uma solução que não vai aparecer tão cedo. Esqueçam os arco-íris e as frases positivas de motivação. O desespero e a desorientação estão na ordem do dia. Vê-se nos grupos de pessoas que passeiam nas ruas sem respeito pelas regras de confinamento ou de higiene respiratória. Ouve-se no burburinho quase ensurdecedor que revela negócios a funcionar por trás de portas semi-cerradas para garantir o sustento das famílias, por “direito à resistência” ou por falta de um rumo que não se distingue no horizonte. Há revolta no ar. Uma revolta que se insurge de braço dado com o caos que se entrevê nos hospitais. As luzes das ambulâncias em fila pintam o cenário com a cor do desgoverno incontrolável. Percebe-se que o pior ainda está por vir. Ao mesmo tempo,  há quem assobie para o lado e negue uma realidade de que não podemos fugir. Duas faces de um mesmo confinamento, que nada tem a ver com a quarentena de 2020. É urgente acordar.

18
Nov20

Estou cansada de pessoas


vanita

Porque eu fiz, eu pensei, eu acreditei, eu lutei. Se não fosse eu, as minhas ideias e as minhas opções. As minhas circunstâncias. Estou cansada de tanto ego, de tanta gente única e insubstituível. Pobre de que nunca é apenas eu, pobre de quem, de certeza, não pensa, não acredita nem luta. Que vidas vazias devem ter esses pobres sem ideias, nem convicções. Gente que não se destaqua pela sua individualidade ofuscante. Como é limitada a vida de quem a vê apenas pelo prisma do próprio umbigo. E são tantos que chegam a lançar a dúvida nos que vêem para lá do seu pequeno mundo.

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