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caixa dos segredos

Bocados de mim embrulhados em palavras encharcadas de emoções. Um demónio à solta, num turbilhão de sensações. Uma menina traída pelas boas intenções.

11
Nov18

Não tive saudades de mim


vanita

Refiz caminhos, trajectos e hábitos de um passado recente. Subi escadas, virei no sentido correto quase de olhos fechados, levei a mão ao passe no momento certo e palmilhei lajes há muito conhecidas, entretanto deixadas esquecidas nesses recantos mágicos da memória de onde conseguimos resgatar a cúmplice rotina que confere aquele sempre tão aconchegante sentimento de pertença a algum lugar. Refiz caminhos mas não me emocionei nem me deixei contagiar pela nostalgia do que já não é. Quando nos anulamos durante tanto tempo, o que fica é o vazio, o nada que, de tão absurdamente ostensivo e incómodo, se dilui e desfaz sem deixar rasto assim que o conseguimos vencer. Refiz caminhos e não me revi. Não tive saudades de mim. 

23
Out18

Eu não sei tudo


vanita

Hoje estava a apresentar uma ideia num grupo de trabalho e sai-me com uma expressão que me é tão natural como autêntica e genuína: “depois acrescentamos uns pormenores importantes sobre este assunto que todos vocês sabem bem melhor do que eu”. Entredentes mas bem perceptível ouvi alguém corrigir-me - sim, eu ouvi: “Ninguém sabe mais do que tu sobre isto!”. Entendo a intenção e aceito a correção. Segue a mesma linha de uma outra que me foi feita há uns tempos quando, numa das milhares de vezes em que me auto-censuro, voz amiga me chamou à atenção: “não te desprezes, tu não és isso que dizes de ti mesma”. Pois não, sei eu! Mas, ao que parece, a minha certeza não é evidente se não me vestir com a arrogância e convicção que dita a postura característica de tantos medríocres que por aí pululam. Desculpem o tom, mas custa-me sempre aceitar a forma como hoje em dia o talento e profissionalismo são muitas vezes ocultados pelo fogo-de-artíficio de quem se enche de certezas e verdades absolutas para criar falsas imagens de sucesso. Eu não acredito nisso. Cheguei a esta idade a acreditar no Pai Natal mas, para mim, o debate de ideias, a mente aberta às dúvidas, a capacidade de adaptação a novas formas de abordagem dos temas, a ausência de padrões rígidos de comportamento ou formatos de procedimento e a certeza de que todos os outros terão sempre algo de útil e muito válido a acrescentar são a minha postura perante a vida. Assim sendo, não me sinto colocada em causa quando me questiono, sinto-me em pé de igualdade. Não me diminuo, mostro-me sempre disponível para aprender e saber mais. E, lamento, do meu ponto de vista, esta é a forma mais sábia de se estar perante a vida. Porque eu não tenho a convição de saber tudo, mas também não tenho medo de perguntar. Seja a quem for.

16
Out18

Desgosta-me


vanita

O mundo está a virar e já não o conseguimos parar. Tenho dúvidas se alguma vez o teremos feito. Os crimes de colarinho desacreditam as instituições, os políticos e tudo o que serve de base à sociedade que temos vindo a construir. A insatisfação gera movimentos de raiva e ódio que pouco devem à moderação. Entramos no comboio da indignação e já só a luta exacerbada preenche o vazio causado pela frustração. Queremos mudar e, sem nos apercebemos, estamos a cometer erros do passado. Alguma vez aprenderemos? 

13
Out18

Entrei no outono da vida 🍂


vanita

Enquanto o sol me toca suave nos braços, uma tímida aragem fresca lembra-me que os dias de verão estão de fugida. Um dia depois de fazer 40, aceitei que estamos no outono. E eu entrei no outono da vida, essa estação que pode ser tão tranquila e amena quanto o desconforto provocado pela chuva e o vento nos permitem. Desde muito nova que gosto de fazer este jogo mental: divido os vários estádios da vida em blocos de 20 anos. A primavera, o tempo das descobertas e do florescimento, que embarca a infância e se prolonga até à entrada na vida adulta; o verão - todos nós temos saudades do verão! - esse tempo louco e irreverente, pleno de vida, alegria e boa-disposição, pelo qual ansiamos todo o ano e que, nesta minha construção pessoal, se preenche com os desvarios dos 20 aos 40 anos; o outono, essa agradável aragem fresca que nos aclama a fúria do verão e nos aconchega em roupas mais confortáveis e rituais tranquilos, propensa ao descanso e até alguma meditação; e finalmente o inverno, esse período que começa aos 60, sem destino predefinido, que dependendo das condições climatéricas, pode ser uma viagem de longo curso mais ou menos intensa. Faz-me sentido esta associação da vida humana com as estações do ano e ajuda-me a equilibrar e aceitar as várias fases desta aventura de estar viva. Cada estação é um desafio a que nos temos de adaptar para, dele, tirar o melhor proveito. Todas têm adversidades - dores de crescimento e maturidade - mas é possível encontrar um sentido orgânico e até espiritual que nos traz tranquilidade. Fazer 40 anos não me assusta mas enche-me de espanto. A vida pôs-me à prova demasiado cedo - na plena loucura do verão - e, sem que me desse conta, não me apercebi da aproximação do outono no horizonte. É mesmo com espanto que sinto a aragem fresca tocar-me no braço. E estou a gostar. 

29
Set18

Estou quase a fazer 40 anos


vanita

Não sei se viverei outros 40. Quando comecei este blog tinha 28 e a alegria recém-conquistada de ter a vida pela frente. Comecei-o uns meses depois de um diagnóstico menos bom e era a gratidão por cada dia que geria as minhas escolhas e opções de vida. Ainda é assim. Mas agora tenho quase 40 anos. Não gosto de me expor mas não sei ser superficial. Vivo de emoções intensas e genuínas, sou feita de convicções e acredito cada vez mais no silêncio como fonte de paz e bem-estar. É comigo mesma que resolvo as minhas revoluções e guerras pessoais. Tenho cada vez mais dificuldade em perceber como é que esta forma de encarar a vida se cruza com um blog intimista como o que este tem sido. Gosto de escrever, sobretudo sinto prazer no jogo com as palavras e o que daí pode sair e essa é uma das características que mais me realiza. Abrir um documento, deixar escorrer o que tenho cá dentro, ser surpreendida com o resultado final e, por muitos anos que passem, continuar a rever-me na composição que disso resultou. Como se fosse guiada por forças invisíveis, sentidos por definir, linhas mestras de outra dimensão. Este blog tem mais de onze anos e há nele tanto de mim como de outras Vânias onde já não me reconheço. Ter 28 anos não é, nem deve ser, o mesmo que ter quase 40. Não sei para onde a vida me leva, que outros caminhos tenho de trilhar ou que desafios vou enfrentar. Sei que todos os dias continuo a aprender e que continuo sempre a sonhar. Não é infantil, nem juvenil ou pouco ambicioso. É o que nos move. A mim também.

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