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caixa dos segredos

29
Nov16

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril


vanita

Não aprendemos a costurar, nem a cozinhar, nem a passar a ferro, menos ainda a ser boas donas de casa. Somos independentes, profissionais e cultas. Temos empregos fora de casa e conseguimos ser mães com muito mais dificuldade do que podemos ou nos deixam admitir. Não queremos perder o estatuto da igualdade nem que, para isso, tenhamos de sofrer em silêncio, disfarçar o inconfessável e sonhar com uma vida melhor, com dinheiro suficiente para pagar a quem faça por nós o que deixámos de aprender. Somos mães mas antes de sermos mães somos cool e promovemos a cultura da juventude eterna. Abraçamos os trinta e os quarenta como se ainda agora estivéssemos a entrar nos vinte, nunca baixamos a guarda. Que Deus nos livre de tal sacrilégio, ainda nos confundem com uma matarruana que não saiu da aldeia, uma dessas miúdas sem visão que trocou um diploma por uma vida igual à das nossas avós. Temos mais de trinta mas nunca seremos como elas, este elas cheio de desprezo e piedade. Somos azedas, cruas e vazias mas enchemos os murais de selfies com sorrisos cristalizados, pouco genuínos, bem estudados. Disfarçamos imperfeições com filtros e seguimos para o próximo evento com a frescura de uma laranja espanhola. Resplandecente por fora, oca por dentro. Porque esta imposição da igualdade nos consume e destrói. Deixamos passar os anos e as décadas e continuamos a recusar agarrar a nossa vida, o nosso conforto. Antes comer fora todos os dias do que agarrar nos tachos e panelas. Um lava-loiça cheio não tem o mesmo impacto numa foto de Instagram. Recusar convites para arrumar roupa e limpar o pó? Não foi para isso que se fez o 25 de Abril! Que desonra dobrar meias num sábado à noite. Há todo um elenco de actividades desenhado para fazer check in e nenhum deles inclui esse pano do pó, menos ainda o aspirador. Somos maiores do que isso, mesmo que no fundo sintamos falta desse conforto. Conquistámos tudo mas, na ânsia de nunca deixar de hastear a bandeira da modernidade, perdemo-nos. A igualdade não se conquista assim. Não é isto a liberdade.

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