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07.02.17

O metro e o Carlos Ruiz Záfon

por vanita

Contei os dias para por as mãos em cima do mais recente livro do Carlos Ruiz Záfon, que me ofereceram no Natal. Cumpri com sacrifício a missão de terminar o que estava a ler e que não me estava a agradar por aí além e eis que, quando chega a hora de terminar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, o tenho parado em casa há quase um mês. Um mês sem lhe tocar, tudo por causa do metro. Os transportes públicos são o melhor tempo que tenho para por as leituras em dia porque, de resto, no que sobra de trabalho e tarefas domésticas e obrigações, gosto mesmo é de dormir. O metro veio estragar-me a rotina. E porquê, perguntam vocês, interessadíssimos neste meu drama caseiro. Porque agora andamos como manadas no metro. Quem usa os transportes públicos em hora de ponta sabe do que falo. Não há civismo que sobreviva ao empurra-chega-para-lá, o novo desporto matinal dos alfacinhas. Um livro de bolso não caberia entre as multidões que coabitam em fúria nas carruagens de metro, menos ainda este pequeno calhamaço com quase mil páginas. Sei do que falo que já o trouxe a passear até à capital algumas vezes, mas sou obrigada a desistir e ainda só li a primeira parte da história. Alguém tem uma solução para isto?

publicado às 21:31

07.02.17

Experiências

por vanita

Um dia apeteceu-me deixar de tomar a iniciativa de procurar as pessoas, só para ver o que acontecia. Além das minhas próprias deduções sobre as teorias de pessoas tóxicas ou não - tema muito discutível - consegui chegar a uma descoberta que sei estar directamente relacionada com essa minha iniciativa. O meu telefone não toca.

publicado às 00:05

02.02.17

Os obsessivos transtornam-me

por vanita

Olhamos à nossa volta e, num dia de iluminada clareza de espírito, percebemos que estamos rodeados de doentes mentais. E sim, nós também estamos incluídos no grupo de malucos. Mas como a leveza com que identificamos o óbvio ainda não se desvaneceu, o facto de fazermos parte do grupo não nos transtorna por aí além. Acreditamos, todos, que somos especiais e únicos e iluminados e que o mundo gira à volta das nossas brilhantes ideias, das conquistas e do reconhecimento, do nosso corpo prefeito ou do sorriso manipulado, que as gracinhas com que um dia, quando éramos crianças, conquistámos os adultos ainda hoje são válidas. E assim seguimos, loucos de atenção, àvidos de distinção, como se nada fosse. E não é, na maior parte dos dias. Até que a clareza de espírito nos sussurra ao ouvido e percepcionamos a realidade sem lentes que ofuscam comportamentos compulsivos e pouco genuínos, que matam a naturalidade e espontaneidade. Nesse dia olhamos como quem vê pela primeira vez e temos a certeza de que nada voltará a ser como antes, não voltaremos a estar cegos. Estamos rodeados de doentes mentais. Gente que, inocentemente, se comporta de forma obsessiva na busca de atenção e reconhecimento. Gente que quer ficar numa história que só existe na própria cabeça, num enredo que mais ninguém vê ou acompanha. Estamos todos loucos. Transtornada e compulsivamente loucos.

publicado às 19:30

29.01.17

E assim começa uma guerra

por vanita

Por causa de um palhaço e uma caneta. Cidadãos detentores de green cards - que lhes dão o direito de viver e trabalhar nos Estados Unidos - estão a ser impedidos de entrar no país e mandados embora. As autoridades até já começam a confirmar posições políticas dos originários dos sete países banidos nas suas páginas de Facebook. O Iraque anunciou que vai explusar todos os norte-americanos dentro de 72 horas. Por causa de um palhaço e uma caneta.

publicado às 10:10

25.01.17

George Orwell nos tops de venda

por vanita

A tomada de posse de Donald Trump já tem um efeito colateral: as vendas do livro 1984, de George Orwell, dispararam. «Os tempos são complicados e o aviso que George Orwell emite - trata-se disso mesmo, de um aviso - é de tal forma assustador que sufoca. Seremos nós, seres humanos, capazes de deixar que isto aconteça? Não se terá esse processo já iniciado? Estaremos a tempo de o abortar? Qual o valor da nossa força?», escrevi eu em 2013, quando o li pela primeira vez. Se ainda não se dedicaram à história que está por trás da frase "Big Brother is watching you", não esperem nem mais um bocadinho. É de leitura obrigatória. 

publicado às 14:12

25.01.17

Estar do lado certo da história

por vanita

O mal só triunfa porque os bons se calam. Para que as sociedades funcionem em pleno, há regras, normas e papéis sociais que devem ser respeitados, sob pena de se (sobre)viver numa anarquia sem rumo. Ainda assim, momentos há em que um individuo, pleno de consciência do mundo que o rodeia de o seu papel na estrutura social, tem de ter a clareza de espírito por optar por fazer diferente. É nesse brilhantismo que, não raras vezes, residem muitas das viragens que o mundo tem. O que seria da luta contra a segregação racial se Rosa Parks não se tivesse recusado a ceder o seu lugar no autocarro? O mesmo se pode dizer do inesquecível discurso de Martin Luther King, da bondade da madre Teresa de Calcutá ou da coragem de Malala Yousafzai e de Simone de Beauvoir. Cada uma destas pessoas, individualmente, acreditou que a sua atitude podia ser a diferença. E seguiu o seu instinto, contra tudo e contra todos. Conseguiram deixar a sua marca. Muitas haverá de que a história não fala, é sempre assim. Mas o importante não é o reconhecimento. Nelson Mandela, Oskar Schindler ou Aristides Sousa Mendes não procuravam a fama ou reconhecimento quando decidiram ir contra a lei. Trata-se sempre de uma luta maior, um gesto bem mais abrangente, mais generoso e caridoso. Trata-se de humanitarismo. Momentos há na vida em que é preciso saber estar do lado certo da história. É imprescindível saber reconhecê-los.   

publicado às 13:35

24.01.17

Cuidado com as portas que se fecham sem se dar por ela

por vanita

Quantas e quantas vezes não se terão eclipsado novas e excitantes oportunidades pelo simples facto de falarmos tanto que não sabemos ouvir? Quantas e quantas vezes não se terão calado novos e excitantes desafios perante a verborreia impensada de quem não percebeu que, aquela conversa, trazia uma proposta agregada. Cuidado com as portas que se fecham inadvertidamente. Quantas e quantas possibilidades não esconde o silêncio?  

publicado às 15:44

23.01.17

Meninos e meninas, senhores e senhoras!

por vanita

O grande palhaço laranja sentou a cabeleira amarela no cadeirão da Casa Branca. De caneta em riste, na Sala Oval, começou logo a rabiscar assinaturas. Apagou sites em Espanhol, determinou o fim de políticas de protecção social e assegurou a mudança de estratégia em relação à poluição do meio ambiente. Sempre com um sorriso na grande cara laranja, o palhaço de cabelo amarelo, contestou os contestários e disse que os jornalistas eram maus. Apresentou factos alternativos para garantir que os reais são errados. De cada vez que rabisca um papel, assassina e viola umas quantas leis constitucionais. Quer lá saber. O grande palhaço passa a mão pelo cabelo, escreve mais um Tweet e pergunta: onde estavam durante as eleições? E segue determinado o seu número de circo. Senhoras e senhores, meninos e meninas: aplausos!

publicado às 18:58

21.01.17

Afinal, não somos todos heróis

por vanita

Nasci quatro anos depois do 25 de Abril e andava na escola primária quando Mário Soares assinou os papéis de adesão à CEE. Fui percebendo, conforme fui crescendo, que a minha infância surgiu nos tempos de acalmia após a tempestade. Não havia PREC, nem ditadores, nem lápis azuis, nem fascismo, nem censura. Demorei a entender a quem se referiam quando falavam no Tempo da Outra Senhora. Por muito que os adultos não acreditassem, o 25 de Abril era abordado pela rama em dois minutos nas aulas. Sabia apenas que tinha sido uma revolução e que tinha devolvido algum poder ao povo. Demorei a ter acesso aos pormenores e a todas as vertentes dessa viragem na nossa história. Sim, durante algumas décadas, não se falava abertamente em Salazar, nem no 25 de Abril. Os primeiros livros e séries sobre o tema começaram a surgir quando eu já trabalhava há largos anos. E o fascínio por um povo que luta por ideais era tão grande, que escolhi a revolução dos cravos para tese de mestrado e sempre lamentei o facto de não viver em tempos de lutas sociais e de conquistas por direitos civis. Durante duas décadas, a vida em Portugal era tão calma e sem sobressaltos que ansiava pela capacidade que uniu o povo na mudança de regime. O vazio de ambição e conforto de quem não se preocupa com o mundo para lá do próprio umbigo angustiava-me porque, ao contrário do que possa parecer, apesar de não se viver mal nesses tempos, continuavam a existir clivagens sociais e valores distorcidos. Continuava a haver por que lutar. São incontáveis as vezes que lamentei não ter vivido em tempos mais aguerridos, em que o meu comportamento e a minha determinação pessoal pudessem fazer a diferença. Quase sem darmos por isso, tudo mudou. Vivemos tempos absurdos hoje em dia, assistimos diariamente a um novo holocausto e à ascensão de poderes políticos que limitam as liberdades individuais com base no medo e da repressão, compactuamos com medidas de corrupção e de censura e assentimos em silêncio, como já o tinham feito os nossos antepassados. Ao contrário do que idilicamente imaginava, não há heróis. Quando o mundo desmorona à nossa volta, não pegamos em cravos e restituímos o equilíbrio. A mudança está nas nossas mãos, mas apenas se formos muitos a pensar da mesma forma e, enquanto houver possibilidade de uma das partes sair beneficiada, essa união não irá existir. É preciso descer ainda mais baixo para que todos anseiem pelo mesmo. E ainda estamos longe disso, talvez estejamos apenas no início. Vêm aí tempos tenebrosos e não, não somos todos heróis.

publicado às 14:34

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