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18.06.17

Revolta

por vanita

Enquanto vejo os idosos que choram ao mesmo tempo que abandonam as suas casas com dificuldade, assisto ao desespero dos animais no sufoco das cinzas e oiço as histórias de quem se salvou por pouco das chamas que tudo fustigaram em volta, cresce uma revolta sem tamanho em mim. Mesmo que desta vez tenha sido por causa natural, que o início do fogo tenha sido causado com a queda de uma árvore por causa da trovoada seca, mesmo tenha sido essa a origem deste Inferno de Dante, caramba, se o mato estivesse limpo, não tinha tido tanto por onde arder. Não venham com merdas, toda a gente sabe isso. E todos os anos é o pobre povinho, o das aldeias, o que só conta para os votos eleitorais, é o povo que morreu na estrada, o que perdeu os filhos, os netos, as mães, pais, tios e avós, é esse povo que paga. Ano após ano após ano. Não há causas naturais que justifiquem as matas por limpar. Deixem-se de merdas.

publicado às 22:37

15.06.17

Em nome do pai

por vanita

Os filhos de Cristiano Ronaldo são apenas isso: filhos de Cristiano Ronaldo. O "maior português vivo", o homem que leva mais longe o nome de Portugal, pode ter tudo - ou quase tudo - o que quiser. E, talvez por isso mesmo, escolheu ter filhos como produção única. Seria de louvar, não fosse tão absurdo e reflexo de insegurança e falta de confiança no mundo e em quem o rodeia. Começa por ser uma falta de respeito para com as namoradas. Das duas vezes em que "foi pai", Cristiano Ronaldo ignorou o facto de estar envolvido com outras pessoas, em relações que pressupõem planos para o futuro e, em última análise, vidas familiares que se cruzam. Cristiano Ronaldo pode namorar, mas para ter filhos, prefere mandar tratar lá fora, que assim é que tem controlo absoluto sobre questões de futuro, pensões de alimentos ou pressões que não lhe interessam. É triste. É uma falta de consideração com os filhos. Para um homem tão agarrado à família, que tanto lamenta a morte prematura do pai, não se percebe que dispense o papel de mãe na vida dos filhos. Dona Dolores, aparentemente aprova, e isso também me foge ao entendimento. A relação mãe-filhos é única e inimitável, o laço mais estreito que teremos em toda a nossa vida. Cristiano Ronaldo, menino querido da mamã, age como se se bastasse aos seus próprios filhos. Como se o dinheiro pagasse a ausência de uma mãe. Mais uma vez, é triste. É uma falta de respeito com as mães das crianças. Mas quanto a isso, pouco podemos dizer, apesar dessa intuição, uma vez que os termos dos "negócios", nunca foram claros. A maternidade pode ser mais triste do que isto? É uma falta de respeito para com a sociedade e os filhos enquanto indivíduos. Por alguma razão se acabou com a designação "filho de pai incógnito". Por ser demasiado triste. Cada um é livre de fazer as suas próprias escolhas e o mesmo se passa com Cristiano Ronaldo. Privar filhos que podem ter tudo de ter uma mãe parece-me apenas a mais lamentável das escolhas. Triste.

publicado às 19:35

14.06.17

Transbordo

por vanita

Não só fico a saber as vidas de quem aproveita as viagens de comboio para por as conversas em dia como, pasme-se, há casos em que até fico interessada. Pior é quando me apetece dar um palpite. Hoje é a história de uma rapariga que odeia a sogra. Vai a desabafar com a mãe e já todos sabemos que ela "não lhe admite isso". Graças a Deus, a rapariga mantém sempre "o sangue frio. Se não fosse isso!".

publicado às 19:10

14.06.17

The end

por vanita

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É o fim de uma era. Bem sei que o SAPO nunca viu com bons olhos o Sitemeter, mas é o meu menino querido. O único que me dá informações específicas e detalhadas sobre quem aqui vem, de onde vem e quanto tempo por aqui anda. Parecendo que não, é um feedback importante, uma das muletas que me agarra ao público que este pequeno cantinho vai tendo. Bem sei que há alternativas para receber este tipo de dados, mas não são a mesma coisa. Depois da extinção do Google Reader, só mesmo o fim do Sitemeter para que nada seja como antes. Já nem estou no Blogspot há uns bons anos. Parece que é mesmo assim, que a vida é feita de mudança. Que venha ela!

publicado às 17:59

12.06.17

Não ser

por vanita

O que mais custa quando deixamos de exercer jornalismo é deixarmos de ter uma palavra activa na sociedade e no que nos rodeia. Seja pela escolha de um ângulo, pela capacidade de farejar uma história, pela investigação de um dado insignificante, um jornalista de imprensa diária tem nas mãos a capacidade de fazer a sociedade olhar para o que se considera ou não relevante. É óbvio que entram em jogo questões de agenda, editoriais e de enquadramento no meio onde se escreve, mas existe uma capacidade de intervenção que dá mais significado ao cansaço do dia-a-dia: um sentido de missão e de dever cumprido, que acaba por se traduzir em realização pessoal. Ser jornalista é ter uma voz, é ter a capacidade de dar voz a quem a não tem. Nestes quase cinco anos que já levo sem o jornalismo na minha vida, é disso que mais sinto falta. De ter opinião e de a poder fazer valer. Custa despir esta pele. Custará sempre.

publicado às 21:19

09.06.17

A imaturidade dos que não crescem

por vanita

Estou a ler um livro que é uma seca, mas uma seca tão grande que se confunde o com o tédio dos meus dias. Depois sou obrigada a ler textos antigos que escrevi neste blog - já vos contei que anda alguém avidamente a devorá-lo, certo? Adorava saber quem é, apresente-se! - e oscilo entre a vergonha e o espanto. Há por aqui bom material, tenho de reconhecer, mas também há muita imaturidade e falta de experiência. É animador notar o crescimento mas, como disse, também é entediante. Leio agora num dos destaques no SAPO que a escrita precisa de rugas e concordo em absoluto. Precisa, pois. E de experiência e de leitura, de empatia e entrega. Só assim se torna intemporal, tão intemporal como o mendigo mal-disposto do metro, aquele que há mais de vinte anos solta impropérios nas carruagens onde entra. Cruzei-me com ele há minutos e, caramba, feitas as contas, anda cá há tanto tempo como eu. Conheço-o desde que entrei para a faculdade e já foi há um bom par de vidas. E sim, o livro que estou a ler é tão fastioso que prefiro escrever ideias soltas a dar-lhe rédea nestes vinte minutos de comboio até casa. É preciso ganhar rugas para saber o que dizer. Acumular vida e desespero para saber esconder em palavras secas a emoção que agarra o leitor. O livro que estou a ler é uma seca. E não, não vos vou dizer qual é. Para não vos entediar.

publicado às 18:59

08.06.17

As pedras que vou colhendo

por vanita

Ainda não eram nove da manhã quando cai, completamente desamparada, sem hipótese de tentar amortizar o impacto, em cima do passeio. O joelho bateu com todo o vigor na esquina do lancil e a mão deslizou esfarrapada pelas pedras da calçada. Fiquei ali, sem reacção, quase 30 segundos, a tentar perceber se conseguia mexer o joelho e continuar com o dia que tinha planeado para hoje. Ainda não vi o tamanho da nódoa negra que há-de assinalar o evento nos próximos dias, mas sobrevivi. Mesma sorte não terão as lindas sandálias que ainda carrego nos pés. Se conseguir chegar a casa sem nova visita ao asfalto, seguem directas para o caixote de lixo. Pena que não se possa fazer o mesmo às tão acalmadas e defendidas pedras da calçada. São lindas. Ficam bem num museu.

publicado às 19:01

06.06.17

Como um baque

por vanita

Às vezes o mundo pára por uns segundos e recomeça estragado. Não conseguimos fazê-lo recuar e resta-nos a capacidade de aceitar realidades que são impossíveis. Como se o ar mal conseguisse passar numa faringe estrangulada pelo inevitável.

publicado às 19:10

01.06.17

O erro que é meter tudo no mesmo saco

por vanita

Eu cresci numa pequena terra chamada Benedita. Nome bonito, nem está mal localizada. Fica mesmo ao lado da antiga Estrada Nacional Número 1, a menos de 20 quilómetros de Alcobaça, pouco mais das Caldas da Rainha e revés Campo de Ourique com Rio Maior, concelho vizinho. Assim dito, parece bem. Mas, além de uma inexistente rede de transportes que facilitasse estes acessos, as próprias infra-estruturas em termos de ligações também estão a anos-luz de serem perfeitas. Pelo contrário, as estradas que ligam estas populações são por feitas de curvas e contracurvas, são estreitas e fazem-se pelo meio dos vários lugares, com cruzamentos e mudanças de direcção que dificultam a chegada a qualquer lado. E nem vou falar da eterna questão do alcatrão que isso é assunto que me desgasta. Feita a apresentação, eu cresci numa terra meio isolada e, não tivesse sido a profética acção dos meus avós e seus conterrâneos, talvez a minha instrução tivesse ficado hipotecada ali pelo sexto ano de escolaridade, que é até onde o Estado oferece esse serviço público que é a educação escolar. E isto na minha geração que nesses tempos dos meus avós, nem isso havia. Ora bem, gente pobre e com dificuldades, esses beneditenses dos anos 50 cedo perceberam que tinham de garantir forma de assegurar a educação dos filhos, já que as escolas de Alcobaça, Caldas da Rainha ou Nazaré não eram sequer alternativa. Não havia forma de lá chegar. Estávamos em 1950 e troca o passo, não preciso de explicar por que é que era difícil lá chegar. Apenas os descendentes de famílias com mais posses se podiam dar a esse luxo. Mas entenderam estes avós que essa distinção não deveria existir e vai de por mãos à obra. Com ranchos de filhos em casa e sem dinheiro para mandar cantar um cego, no tempo em que os rapazes iam para o Ultramar e em que uma sardinha se dividia por muitos estômagos, esta gente da Benedita criou uma Cooperativa de Ensino para garantir o futuro da terra. O Externato Cooperativo da Benedita nasceu da necessidade do povo e da ausência de resposta do Estado. Foi a primeira cooperativa de ensino da Península Ibérica. Um caso exemplar de sucesso que consta inúmeras vezes das listas de melhores escolas a nível nacional. Com mais de 50 anos, há tantas histórias que se podem contar que o mais certo é cometer a injustiça de não as destacar. Há, no entanto, um nome que é indissociável do Externato Cooperativo da Benedita: o Dr. José Gonçalves Sapinho foi o homem que, não sendo da Benedita, mais contribuiu para o bom nome da Instituição, bem como pelo rumo que a distingue das demais. O ECB é uma escola semi-privada, que faz uso de dinheiros públicos por fornecer à população um serviço que o Estado não assegura. Funciona com gestão privada mas não é um colégio no sentido que se conhece. O ECB está aberto a toda a população sem distinção e sem pagamento de qualquer propina para a sua frequência. É uma escola aberta a todos e a única alternativa existente para a Benedita e algumas das freguesias vizinhas. Os órgãos de gestão não são pagos a peso de ouro, nem há carros caros estacionados nas garagens. Todo o financiamento é investido na melhoria das condições para os alunos. E tudo isso é visível e facilmente comprovado. Ora o Estado decidiu que devia cortar nos financiamentos às escolas privadas e, adivinhem: este ano o ECB está incluído nos cortes do Ministério da Educação. A questão é que o ECB não é uma vulgar escola privada. O ECB é a única alternativa que existe para aquela população. Estes cortes obrigam os jovens estudantes a recuar 50 anos, ao tempo em que os nossos avós não tinham alternativa para garantir um bom futuro para os seus filhos. Sim, porque ir estudar para Alcobaça, Caldas da Rainha ou Nazaré continua a ser tão inviável como naquela altura. Além de que nem sequer é válido que essas escolas tenham capacidade para albergar a comunidade estudantil da Benedita, que é só o motor de desenvolvimento da vila. Vamos colocar tudo no mesmo saco? Vamos deitar por terra tudo o que os nossos avós construíram? Estará a sociedade devidamente informada para entender que nem todos os "colégios privados" são albergues de meninos ricos?

publicado às 23:42

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