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06.06.17

Como um baque

por vanita

Às vezes o mundo pára por uns segundos e recomeça estragado. Não conseguimos fazê-lo recuar e resta-nos a capacidade de aceitar realidades que são impossíveis. Como se o ar mal conseguisse passar numa faringe estrangulada pelo inevitável.

publicado às 19:10

01.06.17

O erro que é meter tudo no mesmo saco

por vanita

Eu cresci numa pequena terra chamada Benedita. Nome bonito, nem está mal localizada. Fica mesmo ao lado da antiga Estrada Nacional Número 1, a menos de 20 quilómetros de Alcobaça, pouco mais das Caldas da Rainha e revés Campo de Ourique com Rio Maior, concelho vizinho. Assim dito, parece bem. Mas, além de uma inexistente rede de transportes que facilitasse estes acessos, as próprias infra-estruturas em termos de ligações também estão a anos-luz de serem perfeitas. Pelo contrário, as estradas que ligam estas populações são por feitas de curvas e contracurvas, são estreitas e fazem-se pelo meio dos vários lugares, com cruzamentos e mudanças de direcção que dificultam a chegada a qualquer lado. E nem vou falar da eterna questão do alcatrão que isso é assunto que me desgasta. Feita a apresentação, eu cresci numa terra meio isolada e, não tivesse sido a profética acção dos meus avós e seus conterrâneos, talvez a minha instrução tivesse ficado hipotecada ali pelo sexto ano de escolaridade, que é até onde o Estado oferece esse serviço público que é a educação escolar. E isto na minha geração que nesses tempos dos meus avós, nem isso havia. Ora bem, gente pobre e com dificuldades, esses beneditenses dos anos 50 cedo perceberam que tinham de garantir forma de assegurar a educação dos filhos, já que as escolas de Alcobaça, Caldas da Rainha ou Nazaré não eram sequer alternativa. Não havia forma de lá chegar. Estávamos em 1950 e troca o passo, não preciso de explicar por que é que era difícil lá chegar. Apenas os descendentes de famílias com mais posses se podiam dar a esse luxo. Mas entenderam estes avós que essa distinção não deveria existir e vai de por mãos à obra. Com ranchos de filhos em casa e sem dinheiro para mandar cantar um cego, no tempo em que os rapazes iam para o Ultramar e em que uma sardinha se dividia por muitos estômagos, esta gente da Benedita criou uma Cooperativa de Ensino para garantir o futuro da terra. O Externato Cooperativo da Benedita nasceu da necessidade do povo e da ausência de resposta do Estado. Foi a primeira cooperativa de ensino da Península Ibérica. Um caso exemplar de sucesso que consta inúmeras vezes das listas de melhores escolas a nível nacional. Com mais de 50 anos, há tantas histórias que se podem contar que o mais certo é cometer a injustiça de não as destacar. Há, no entanto, um nome que é indissociável do Externato Cooperativo da Benedita: o Dr. José Gonçalves Sapinho foi o homem que, não sendo da Benedita, mais contribuiu para o bom nome da Instituição, bem como pelo rumo que a distingue das demais. O ECB é uma escola semi-privada, que faz uso de dinheiros públicos por fornecer à população um serviço que o Estado não assegura. Funciona com gestão privada mas não é um colégio no sentido que se conhece. O ECB está aberto a toda a população sem distinção e sem pagamento de qualquer propina para a sua frequência. É uma escola aberta a todos e a única alternativa existente para a Benedita e algumas das freguesias vizinhas. Os órgãos de gestão não são pagos a peso de ouro, nem há carros caros estacionados nas garagens. Todo o financiamento é investido na melhoria das condições para os alunos. E tudo isso é visível e facilmente comprovado. Ora o Estado decidiu que devia cortar nos financiamentos às escolas privadas e, adivinhem: este ano o ECB está incluído nos cortes do Ministério da Educação. A questão é que o ECB não é uma vulgar escola privada. O ECB é a única alternativa que existe para aquela população. Estes cortes obrigam os jovens estudantes a recuar 50 anos, ao tempo em que os nossos avós não tinham alternativa para garantir um bom futuro para os seus filhos. Sim, porque ir estudar para Alcobaça, Caldas da Rainha ou Nazaré continua a ser tão inviável como naquela altura. Além de que nem sequer é válido que essas escolas tenham capacidade para albergar a comunidade estudantil da Benedita, que é só o motor de desenvolvimento da vila. Vamos colocar tudo no mesmo saco? Vamos deitar por terra tudo o que os nossos avós construíram? Estará a sociedade devidamente informada para entender que nem todos os "colégios privados" são albergues de meninos ricos?

publicado às 23:42

31.05.17

Vazios

por vanita

Peguem no pormenor mais absurdo que acontece em cada dia, na coisinha mais estúpida que se lembrarem. Como um erro de publicação nas redes sociais, por exemplo. É sobre esse pormenorzinho de nada que se gastam rios de caracteres nos próximos dias. Textos de nada sobre nada. É ao que chegámos.

publicado às 15:16

26.05.17

Prazos de validade

por vanita

Eu como iogurtes fora do prazo, sem qualquer problema. Como pão de forma depois da data de expiração e arrisco idêntica aventura com barras de chocolate, bolachas ou cereais. Mas não o faço com fiambre - até o novo me cheira a velho, por que será? -, menos ainda com medicamentos ou com molhos. Os critérios defini-os há anos, baseada em justificações pouco científicas e mais de instinto. A minha dúvida refere-se às relações de amizade. Como é que sabemos, ou que critérios escolhemos, para distinguir as que resistem à erosão do tempo e da distância das que há muito é garantido que nos farão mais mal que bem? Quem já passou dos vinte sabe bem que há amizades que se mantêm intactas como no primeiro dia, mesmo que vários anos se tenham interposto entre duas pessoas. Estamos com determinadas pessoas que perdemos no tempo e é como se a última vez tivesse sido ontem. Podem ter nascido filhos, havido doenças, separações, mudanças de país ou cidade, mas os sorrisos surgem com a mesma frescura e encanto, alheios ao espaço temporal que os separa. São relações mágicas, que nos confortam, por nos darem a garantia que nem tudo se perde no passado, no que já foi. Depois há as outras. Relações de amizade que cheiram como o fiambre: nunca percebemos se aquela intensidade é natural ou se já está azedo. É feio comparar amigos com fiambre, mas digam lá que não sabem do que falo? Há sempre aqueles amigos que não nos fazem assim tanto bem - ou nós a eles. Relações que persistem mas que nos deixam na dúvida, no limbo do desencanto. E estas é que complicam a fórmula. Porque se ainda existem é porque são importantes, caso contrário, há muito que teriam desaparecido, de forma indolor, sem deixar rasto. Como é que se define um prazo de validade nestes casos? Comemos o iogurte sem medos ou talvez seja melhor adoptar a estratégia dos medicamentos e não dar margens de erro? Será sempre um sentimento mútuo ou também haverá desejos díspares entre as duas pessoas em questão? Havendo vontades diferentes, poderá ser amizade na mesma quando apenas uma das partes sente que o prazo ainda não chegou ao fim? Quanto mais cresço, mais dúvidas tenho.

publicado às 23:16

12.05.17

MET Gala

por vanita

Não, não venho falar da passadeira vermelha. É um pouco tarde para isso. Venho falar de Lena Dunham, que pisou a passadeira vermelha. Alguém se lembra de ler ou ouvir a notícia de que teve de abandonar a gala para ir ao hospital? Ou isso não é tão glamouroso como os vestidos que desfilam frente aos fotógrafos. A actriz tem 30 anos e sofre de endometriose. Essa doença esquisita de que não se fala porque mete dores menstruais - cruzes, credo! -, pode causar infertilidade - meu deus, isso não interessa a ninguém! - e, basicamente, é tão melhor quando não temos que nos lembrar de que existe. Mas sim, existe. E uma das actrizes que esteve na gala que mais dá que falar teve de sair a meio - não sei se estão a perceber, teve de sair a meio - por não aguentar mais as dores. Imaginam o que terá sido até ali? Foi notícia em algum lado? Até foi, mas não chegou cá. Por quê? Pelas razões todas que já insinuei. Enquanto o período causar arrepios ao interlocutor e houver medo de chamar as coisas pelos nomes, enquanto andarmos todos a fazer teatro porque assim não temos de encarar a horrível verdade, muitas mais mulheres continuarão por aí em condições desumanas: a ficar de pé nos transportes públicos, a usar saltos altos porque é mais elegante, a dizer que sim a todos os compromissos mesmo que, para isso, vá morrendo sempre mais um bocadinho. Serve este post para contrariar isso mesmo. A endometriose é uma doença que afecta cada vez mais mulheres e não pode continuar a ser ignorada. Não é a única. A nós, mulheres, cabe-nos o papel de deixar de mascarar a realidade. Os dias difíceis são para ser assumidos, as dores e o cansaço também. E isso não é sinal de fraqueza. 

publicado às 15:21

11.05.17

Do alheamento

por vanita

Não sei se foi dos muitos anos de celebridades e famosos como objecto de trabalho, se de ser distraída ou de não estar nem aí para mais discussões de nada, mas a verdade é que vi os InstaStories da Carolina Patrocínio com as injecções intravenosas sabe-se lá do quê, vi que as estava a fazer em casa com demasiada naturalidade, vi a bebé ali ao lado, vi o marido chegar e juntar-se a ela. Assisti a tudo quase em directo e não me indignei. Parece que devia, que o caso até já está a ser analisado por instâncias superiores e tudo. E bem, se formos a ver. Mas o que me preocupa mesmo, não vivêssemos em tempos de egocentrismo, é por que raio não percebi que aquilo talvez fosse de mais? Pior, se até percebi, por que é que não liguei e segui como se nada fosse? É isto o reverso desta exposição excessiva e auto-centrada? Não estamos nem aí? Eu não estive.

publicado às 19:19

09.05.17

Tão merecido

por vanita

Todos os dias, mesmo que me deite mais cedo, acordo à uma da manhã quando ele chega a casa. Todos os dias me levanto às sete. É duro, mas o jornal fecha tarde por causa do futebol. Ao fim-de-semana, o telemóvel toca de cinco em cinco minutos: são notificações de jogos (whatever that means!). Quando me distraio e volto a olhar para a televisão, fala-se sobre bola, discutem-se problemas sérios como o penálti não assinalado no jogo Y ou a saída do jogador X. Ultimamente é qualquer coisa dos vídeo-árbitros. A nossa vida é lembrada com mnemónicas de futebol: foi no dia em que o Sporting jogou com não sei quem, o Porto marcou dois ao não sei das quantas ou o Legia de Varsóvia fez não sei bem o quê. Não é só. TODA a vida segue ao compasso de agendas de jogos de futebol: que já foram ou que vão ser. Os bolos de aniversário são campos de futebol relvados, daqueles da nossa infância. Gosto tanto deste pormenor que já sou eu que insisto para que não mude. Se está mais distraído ou com pressa e não percebo bem porquê, o erro é meu: devia de olhar mais vezes para o mapa de jogos. De certeza que alguma equipa está a entrar em campo ou sair ou a perder ou a ganhar. Alguma coisa se passa, eu é que não sei. O futebol entrou na minha vida assim, sem pedir licença. Veio agregado àquele que é agora o meu marido. Mal se dá por ele, mas está sempre lá. Porque Rui Miguel Melo respira futebol, é a pessoa que mais sabe sobre o assunto e foi agora reconhecido pelo CNID - Associação de Jornalistas de Desporto com o prémio Vítor Santos - Revelação Imprensa Escrita. E é tão merecido como o que se depreende deste texto. Para mim, é um orgulho imenso. Tanto que não cabe em palavras. Só neste sorriso vaidoso.   

publicado às 11:20

02.05.17

Por 13 razões, uma série que incomoda

por vanita

Foi um soluço que não consegui controlar. Algumas cenas na série "Por 13 Razões" do Netflix são brutalmente gráficas. Uma em particular acabou com o meu auto-controlo. Quando percebi, desfazia-me em lágrimas. Não lágrimas que escapam de um nó apertado na garganta. Estas eram o resultado de qualquer coisa de muito profundo que não contive. A série que está a dar que falar um pouco por todo o lado aborda o suicídio adolescente e não tem deixado ninguém indiferente. Há quem critique, quem aponte a sua relevância, há choque e desespero. Não foi diferente comigo. A angústia cola-se à pele, devagarinho, como uma moínha, inicialmente nem nos aparecemos do seu efeito. Há apenas um desconforto latente, uma vontade de fugir e um sentimento de que não queremos estar ali. Na minha opinião, a série era chata, parada e com pouco interesse. Mas se assim era, por que não conseguia parar de ver episódio atrás de episódio? Olhando para trás, acredito que o que sentia era semelhante ao que se vive no secundário: um tédio brutal de quem está encurralado em dias que não avançam. Não estava preparada para a intensidade psicológica e gráfica dos episódios finais. Há imagens que nunca serão apagadas da minha memória e não acredito que fossem absolutamente necessárias. No entanto, se não fosse por elas, estaria eu aqui a escrever sobre isto quase 48 horas depois de as ter visto? "Por 13 razões" é um murro no estômago. Nada aconselhável a adolescentes, tenho a certeza. Mas é um murro que cumpre a função quando desferido a adultos, pais e crescidos. Porque há temas que não devem ser ignorados. Treze, pelo menos.

publicado às 23:49

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