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caixa dos segredos

27
Set17

O meu coração preto


vanita

Fiz escuteira durante dez anos, dos 12 aos 22. Devia ter saído quatro anos antes, no auge do que foram alguns dos melhores momentos da minha adolescência e entrada da vida adulta. Nunca voltarei a conhecer camaradagem nem espírito de equipa como o que ali se viveu, no Agrupamento 710 Benedita. Quem passou por lá comigo, naqueles tempos, entre 1992 e 2002, sabe bem do que falo e é indescritível. Há alturas na vida em que tudo se conjuga com harmonia e o mundo faz tanto sentido que chega a ser mágico. Andar nos escuteiros, sobretudo nesse tais anos que falo, de 1994 a 1996, entra nesse campo mítico que une alguns seres humanos para sempre, com laços de amizade e admiração indestrutíveis. E é por isso que ainda hoje recomendo o escutismo aos pais de todas as crianças e jovens que conheço. Porque estas experiências ficam para sempre, regem-se por bons valores e promovem a lealdade e fraternidade como forma de estar. Tudo boas bases para a formação de jovens adultos. Claro que depois veio o revés: devia de ter desistido mais cedo. Os últimos anos que vivi no escutismo não foram bons e a desilusão com as pessoas quase que afectou de forma irrevogável - não nos termos que o Paulo Portas usa - a minha crença na instituição. Saí triste e magoada com as pessoas e com o que considerava verdadeiras traições ao espírito escutista. Levei algum tempo a distinguir os defeitos de carácter individuais e a perceber que não se confundem com a estrutura que gere e orienta as ideias basilares do escutismo. As pessoas são falíveis, têm defeitos e erram inúmeras vezes. Os ideais serão sempre a bússola que os orienta. De forma mágica, em momentos raros e únicos, como um farol que nos ilumina ao longe, nos tempos mais negros. Gosto de acreditar que isto que aconteceu com o Escutismo se aplica a vários outras vertentes da nossa vida.

19
Set17

A minha contribuição para a igualdade de género


vanita

Utilizada a 25 Nov 2010.png

Tenho andado a rever a série "New Girl" e, um dia destes, assisti a um episódio em que um escandalizado Nick ensina o pobre Schmidt a lavar a roupa na máquina. Fá-lo de forma exemplar, como se fosse a coisa mais banal do dia-a-dia, perante a angustiada vergonha do amigo, por ter de assumir que não o sabe fazer. Este é um daqueles casos em que se educa pela ficção. Nenhum destes comportamentos é (ainda) norma. Os homens não se envergonham de não saber usar os aparelhos domésticos e nem aprendem a fazê-lo desde crianças. Felizmente, tendemos para isso, embora vá demorar mais do que devia até que seja realmente como está retratado neste episódio. Sabemos disso quando ouvimos comentários menos simpáticos para homens que fazem das tarefas domésticas parte da sua rotina. A sociedade ainda assume que os homens precisam de ajuda para gerir uma casa. É mais implacável com as mulheres, mas a verdade é que também se está a perder terreno nessa facção. As mães adoram mimar os filhos e, neste caso, mal. Há progenitoras que continuam a insistir em passar a ferro a roupa dos meninos - e das meninas - quando eles já saíram de casa, casaram e foram pais de filhos. Há quem insista em fazer a limpeza semanal na casa de filhos crescidos e criados. Há adultos feitos que nunca lavaram uma sanita.

 

Ora bem, esta pequena introdução conduz à minha proposta para a igualdade de género. É muito simples: que se ensinem tarefas domésticas nos primeiros anos escolares. São aulas que podem ser práticas e contribuem para o bem-estar de todos. Ser adulto também é saber limpar o pó, aspirar, lavar a roupa e fazer uma sopa. Escolher vegetais no supermercado, aprender a ler rótulos dos alimentos, saber optar pelo detergente correcto para limpar as loiças da casa de banho, passar a ferro e engraxar os sapatos. Distinguir a roupa a colocar no tambor da máquina, escolher a temperatura correcta e aprender a diferença entre um estufado de um assado. Ligar o forno, fazer um bolo, aprender a coser à mão, fazer bainhas e pôr um botão. Qualquer uma destas actividades é essencial e indispensável no dia-a-dia de um adulto. E, apesar de, nos anos mais recentes, a sociedade de consumo nos ter habituado a satisfazer as necessidades num acto de compra, o saber fazer nunca ocupou lugar. Pelo contrário, com conhecimento de causa, temos argumentos para saber escolher e avaliar o valor (monetário ou não) de cada tarefa. E é de pequenino que se torce o pepino. Com naturalidade e muita brincadeira à mistura. Porque não há razão para vivermos em mundos de fantasia, onde as necessidades básicas não fazem parte da prioridade de ensino.

 

Por isso, a minha proposta é que se eduquem a crianças a saberem ser adultas independentes e subsistentes.

 

 

13
Set17

Já vi a terceira temporada de Narcos


vanita

Está noite, foram quatro episódios de seguida. Só consegui parar quando a temporada chegou ao fim. Desenganem-se, por isso, os cépticos como eu que pensavam que, com a morte de Pablo Escobar, a série perderia ritmo e interesse. Dizem que a culpa é do produtor Jose Padilha e, de facto, confirma-se. Ficamos agarrados à trama e ao ritmo alucinante dos acontecimentos. Mérito do guião e da montagem das cenas. E sim, também há episódios menos bons, secantes até. O primeiro embate com esta temporada começa logo pela ausência do agente Murphy, a grande voz das duas primeiras temporadas e, para mim, suficiente para me agarrar ao ecrã. A presença do português Pêpe Rapazote não desilude mas não chega para o vazio que se instala nestes primeiros instantes. Ainda andamos ali uns episódios à procura de um novo caminho, agora em torno do Cartel de Cali. E há que dar os parabéns à equipa de guionistas que, depois de duas temporadas centradas numa figura ímpar e muito forte, optou por, subtilmente, mudar o foco da história. Não quero contar mais do que devo mas damos por nós a seguir histórias de personagens bem diferentes da que marcou o início da série. Com suspense, angústia e reviravoltas que nos prendem até ao episódio final. Pablo Escobar é único é inigualável mas, posso garantir, não sentimos a sua falta. Venham os cartéis do México e mais uma temporada.

12
Set17

Devia de ser proibido


vanita

Há quatro jogos marcados para o dia das eleições autárquicas. Pela segunda vez, repete-se o desrespeito total pelo exercício do sufrágio universal. Em dia de eleições as atenções devem de estar única e exclusivamente viradas para essa questão. Se cada um pretende ou não fazer uso do seu direito enquanto cidadão, já é a democracia a funcionar. Agendar jogos que movimentam massas distraindo-as do seu dever cívico soa-me a prepotência e indiferença. E que país, que cidadãos, somos quando nos damos do luxo de ignorar o próprio destino? Há compromissos comerciais que envolvem largas quantias de dinheiro? Também há regras e valores que se devem sobrepor à ditadura dos mercados.

07
Set17

Reclamar, pois então!


vanita

Tinha pouco tempo para almoço e não tinha conseguido arranjar marmita. Às onze da manhã, encomendei uma salada numa conhecida empresa de entrega de pizzas, com pedido para entrega às 13h00. Eram 13h35 quando a alface mal enjorcada aterrou em cima da minha mesa. Perante a minha pergunta pela razão da demora, recebo uma resposta irónica: "Quer que leve para trás e traga outra?". Assim mesmo, com um ar sério a esconder a petulância. Reclamei, claro.

Nos dois dias seguintes, tive de relatar isto várias vezes. Uma por cada um dos mil telefonemas que recebi da comissão que trata da imagem da marca de pizzas. Foi mal atendida? Que horror, conte-nos o que aconteceu. E eu contei. Uma, duas, três, seguramente mais de quatro vezes. No final disseram-me que teria direito a 50 por cento de desconto no próximo pedido. Já o fiz e optei por não fazer uso dessa benesse. Teria muito que explicar e seria cansativo.

Curiosamente, nesse mês, fui abordada pela oficina do carro para agendar a revisão. E eu, que sim senhor, que grande ideia, estava mesmo a pensar nisso. Já agora, aproveitava a viagem e fazia a reparação de um sinistro já pago à vossa empresa, que tem ficado esquecido há quase um ano, aí nos vossos ficheiros. Com certeza, tratamos já disso. Em menos de nada, o responsável pelo departamento de sinistros liga e agenda - quase sem hipótese de escolha - para o fim do mês. Mas olhe, alerto com bastante assertividade, quero conciliar isso com a revisão e inspecção do carro. Pois, claro, os meus colegas vão ligar para tratar disso.

Durante três semanas enviei mails e fiz telefonemas. Nunca obtive qualquer resposta, nunca me atenderam o telefone. O dia de reparação chegou sem que me voltassem a responder quanto à revisão, a verdadeira razão pela qual me ligaram inicialmente. Lá deixámos o carro e, que remédio, agendámos a revisão para data posterior. Tudo certo, até começarem os telefonemas de avaliação. Esses nunca falham, certo? Então porque é que nos atribui o valor de quatro se pode dar-nos até dez valores pela prestação do serviço. E vá de relatar este relambório todo várias vezes. Duas vezes na mesma manhã, três vezes, quatro vezes. Sabe, é que aqui no relatório da minha colega não temos acesso a todos os caracteres e não conseguimos entender o que se passou. E eu explico, pela milionésima vezes. As vezes todas que me pedem. Com poucos minutos de diferença entre os vários telefonemas. Pedimos imensa desculpa, tivemos uma anomalia nos mails. Ah, e nos telefones também. Ok, ok, só queria que deixassem de me ligar por causa disto, estou a tentar trabalhar. Quando quis que me atendessem o telefone nunca tive sorte. Tem toda a razão. Vou-lhe só pedir que, no fim deste telefonema, responda a um inquérito que lhe vão fazer sobre a minha prestação nesta chamada. Tenham a santa paciência, mas não. Tivessem o mesmo empenho no atendimento aos clientes que põem na notoriedade da empresa e nem sequer aqui estaríamos.

05
Set17

Precisamos de recomeços


vanita

Bem melhor que o gélido Janeiro, Setembro chega cálido e envolto em promessas que se esfumam nas suaves memórias dos dias longos de Verão. Secretamente, abraçamos com saudade a rotina do desconfortável assento do que é mecânico e conhecido. É bom regressar aos dias iguais e sem surpresas. São o que mais falta nos faz quando perdemos o pé ao ciclo da vida. Precisamos de recomeços, para nos agarramos ao (in)certo.

03
Set17

Já lá vão cinco anos


vanita

Pensei que era um intervalo, um interregno até desejado. A vida de jornalista é exigente e muito cansativa. Há cinco anos já não trazia muita realização e abracei a novidade com apreensão - nunca quis abandonar as redacções - mas com a certeza de que novas experiências são sempre benéficas e iria tirar o máximo proveito disso. Troquei o jornalismo pela assessoria de imprensa - oh, sacrilégio. Mas nunca imaginei que cinco anos depois ainda não tivesse voltado a renovar a carteira de jornalista. Profissões irmãs que são incompatíveis, pelo menos de lá para cá, que é como quem diz, do jornalista para o assessor, já que este não pode fazer o seu trabalho sem redacções. "Pensa nisto como uma fase. Daqui a dois anos ou três estás de volta", disse-me um veterano dos jornais. E eu acreditei que podia ser assim. Não foi e é com o coração partido que percebo que dificilmente será: o volume de vendas e o anúncio de fecho de títulos de imprensa é tudo menos animador. Já todos perceberam que é necessário mudar o paradigma da comunicação social mas ainda há muito ruído quanto ao caminho a seguir. E aquilo que era um intervalo para mim, tem sido bastante elástico a albergar cada vez mais colegas. Éramos poucos, passámos a alguns e agora estamos quase todos do outro lado da barricada. Gente talentosa e com ambição, jornalistas criativos e provas dadas, a crise que afecta a imprensa não poupa ninguém. E enquanto isso, conto cinco anos de intervalo. Até quando?

01
Set17

O que fazer com este blog?


vanita

Noventa por cento dos meus leitores são leitoras. Mais de 70 por cento são visitantes recorrentes e, o que mais me espanta, a grande maioria tem entre 35 a 44 anos. Velhas, penso eu. E depois percebo que são da minha idade. Quase 60 por cento das pessoas que se dão ao trabalho de ler o que aqui escrevo são meninas que já por aqui param há algum tempo. Apenas 40 por cento tem entre 25 e 34 anos, que era a faixa etária onde eu estava quando comecei esta aventura. Pelos vistos, já nada do que tenho para dizer interessa aos mais novos. O mundo dos blogs mudou tanto desde aqueles meados da primeira década dos anos 2000 que praticamente nenhum dos blogs que mais gostava de ler está activo. Salvam-se honrosas excepções, que espero que assim se mantenham. Mas o público descobriu os blogs de ouro. Especializaram-se, deram a cara, assumiram uma edição cuidada e pensada para o leitor e eu, por escolha própria e consciente, não alinhei nisso. Actualmente, os blogs dividem-se por categorias: lifestyle, crianças, cinema, política, fotografia, cozinha, o que quer que seja. São produtos de marketing, pensados e dirigidos para mercados específicos. Não há cá desta coisa de se escrever apenas porque sim. Melhor: há, mas fica apenas no quintal de cada um. E o meu quintal são as miúdas da minha idade que ainda por cá costumam passar. Por hábito, quem sabe. Nada mais. E eu tenho cada vez menos a dizer. Não gosto que me julgem e, sabendo que o fazem, prefiro que tenham pouca lenha para alimentar o fogo. Opiniões, histórias pessoais e ideias mirabolantes que me passam pela cabeça, ficam no crivo cada vez mais apertado que - sem que o tenha previsto - imponho a mim mesma antes de publicar. Surge a pergunta, sem resposta: o que fazer com este blog? 

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