Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

caixa dos segredos

21
Jan17

Afinal, não somos todos heróis


vanita

Nasci quatro anos depois do 25 de Abril e andava na escola primária quando Mário Soares assinou os papéis de adesão à CEE. Fui percebendo, conforme fui crescendo, que a minha infância surgiu nos tempos de acalmia após a tempestade. Não havia PREC, nem ditadores, nem lápis azuis, nem fascismo, nem censura. Demorei a entender a quem se referiam quando falavam no Tempo da Outra Senhora. Por muito que os adultos não acreditassem, o 25 de Abril era abordado pela rama em dois minutos nas aulas. Sabia apenas que tinha sido uma revolução e que tinha devolvido algum poder ao povo. Demorei a ter acesso aos pormenores e a todas as vertentes dessa viragem na nossa história. Sim, durante algumas décadas, não se falava abertamente em Salazar, nem no 25 de Abril. Os primeiros livros e séries sobre o tema começaram a surgir quando eu já trabalhava há largos anos. E o fascínio por um povo que luta por ideais era tão grande, que escolhi a revolução dos cravos para tese de mestrado e sempre lamentei o facto de não viver em tempos de lutas sociais e de conquistas por direitos civis. Durante duas décadas, a vida em Portugal era tão calma e sem sobressaltos que ansiava pela capacidade que uniu o povo na mudança de regime. O vazio de ambição e conforto de quem não se preocupa com o mundo para lá do próprio umbigo angustiava-me porque, ao contrário do que possa parecer, apesar de não se viver mal nesses tempos, continuavam a existir clivagens sociais e valores distorcidos. Continuava a haver por que lutar. São incontáveis as vezes que lamentei não ter vivido em tempos mais aguerridos, em que o meu comportamento e a minha determinação pessoal pudessem fazer a diferença. Quase sem darmos por isso, tudo mudou. Vivemos tempos absurdos hoje em dia, assistimos diariamente a um novo holocausto e à ascensão de poderes políticos que limitam as liberdades individuais com base no medo e da repressão, compactuamos com medidas de corrupção e de censura e assentimos em silêncio, como já o tinham feito os nossos antepassados. Ao contrário do que idilicamente imaginava, não há heróis. Quando o mundo desmorona à nossa volta, não pegamos em cravos e restituímos o equilíbrio. A mudança está nas nossas mãos, mas apenas se formos muitos a pensar da mesma forma e, enquanto houver possibilidade de uma das partes sair beneficiada, essa união não irá existir. É preciso descer ainda mais baixo para que todos anseiem pelo mesmo. E ainda estamos longe disso, talvez estejamos apenas no início. Vêm aí tempos tenebrosos e não, não somos todos heróis.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D