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27.07.15

Somos o que fazemos

por vanita

"A mim pagam para fazer novelas, não me pagam para as ver". A frase saiu alto e bom som da boca de actriz que me vou escusar de nomear mas que, de qualquer forma, não reconheceriam à primeira. Antes deste remate estrondoso, com voz bem colocada, a profissional garantia que se fazia pagar bem pelos serviços e que não entendia como é que nos castings optavam sempre por nomes bem mais conhecidos do público, que se fazem pagar a peso de ouro. É que ela cobra, mas faz vinte cenas num dia, coisa que as outras actrizes a que também não vou dar nome não conseguiriam nem que quisessem. O caso não é inédito, não é sequer grande novidade. Vivemos tempos de míngua e escassez. A meritocracia é utopia e, para sobreviver à desdida dos dias, cada um de nós habita um mundo irreal, um lugar onde a evidência do nosso talento se sobrepõe à exigência imediata do dia-a-dia. Acreditamos, porque precisamos disso como pão para a boca, que somos mais do que mostramos. E somos, evidentemente. Cada ser humano é soma de diversas perspectivas: nenhuma está totalmente correcta ou absurdamente errada. Ainda assim, a imensidão de pensamentos e complexidade de conhecimentos que nos povoa não nos define, por mais injusto que seja. Indignarmo-nos, plenos de razão, não muda o resultado final. Somos o que fazemos e é na forma que nos revelamos. Pouco importa se a novela não é considerado um formato nobre. A excelência que reclamamos emerge em qualquer solo. Esqueçam os balões e confetis, os anúncios públicos e a exigência de atenção. O carácter sobressai em tudo o que fazemos. Por menor que possa parecer. Sim, somos o que fazemos. Mas raramente é o que fazemos que nos define.

publicado às 20:07

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