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24.01.15

Disse-me um adivinho, de Tiziano Terzani

por vanita

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Avessa a ciências ocultas e do obscurantismo, como poderia eu deitar mãos a um livro que envereda pela procura do melhor visionário de futuro numa viagem pela Ásia? A culpa é da minha amiga J., que me alertou para este livro do jornalista italiano Tiziano Terzani, que viveu grande parte da sua vida entre a China e a Índia e que ficou um ano sem viajar de avião por causa disso mesmo... de um adivinho, que lhe disse, 16 anos antes, que poderia morrer se andasse de avião durante o ano 1983! Esta é a premissa de "Disse-me um adivinho", um livro de quase 600 páginas onde somos guiados pelo autor por mundos desconhecidos e formas de ser e estar que não poderíamos descobrir facilmente.

Como saber que, até há bem pouco tempo, existia a tribo dos "cortadores de cabeças", que agradece aos deuses as boas colheitas enterrando a cabeça de uma criança de uma terra vizinha? Ou que algumas das grandes estradas de ligação entre locais inacessíveis da Tailândia foram abertas por prisioneiros-escravos agrilhoados com correntes? Como poderia imaginar que, na visão deste autor, o povo chinês representa o pior da ambição e que a destruição dos valores base do Oriente se deve à sua paixão desmesurada pelo dinheiro? O que dizer da descrição de Singapura, vista como uma ilha hermética, com ar condicionado? Viajar com Tiziano é procurar profissionais de adivinhação em grandes cidades, vestidos de fato, ou encontrá-los embrulhados em trapos andrajosos nos mais recônditos locais, onde só se chega depois de vários dias de caminhada. É ouvir a mesma lengalenga, vezes e vezes sem conta, da boca de cegos, mulheres idosas ou crianças, é ver o futuro em ossos de ovelhas ou lido nas cartas e palmas das mãos. É cheirar intrujice e sermos levados a acreditar que é possível que algumas pessoas tenham de facto mais sensibilidade para observar o mundo e quem nele habita. É viajar no comboio transiberiano e, com essa experiência, perceber o papel da Mongólia, espartilhada entre dois colossos do comunismo: a Rússia e a China. Ler "Disse-me um adivinho" é abdicar das nossas convicções e apreender outras realidades pela mão de um jornalista que só se vai dando a conhecer, sem se expor mais do que pretende. Ler este livro é aprender a fazer escolhas enquanto se enriquece a concepção que temos da realidade. Não é uma previsão, mas é um meio de chegada.

publicado às 15:40

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