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caixa dos segredos

05
Set14

"Pela Estrada Fora", de Jack Kerouac


vanita

Dean Moriarty representa tudo o que odeio. A total ausência de responsabilidade numa corrida desenfreada rumo ao abismo, arrastando tudo e todos com quem se cruza ao longo do caminho. E é em torno desta personagem tóxica, inspirada no amigo Neal Cassady, que Jack Kerouac faz correr as viagens que dão origem a este livro autobiográfico, relatado na primeira pessoa pelo seu alter-ego, Sal Paradise. É preciso que se entenda que "Pela Estrada Fora" decorre a uma velocidade vertiginosa, quase como se o autor também quisesse levar-nos a nós, leitores, nos bancos de trás das carripanas, à boleia ou a pé pelas ruas e bares, inebriados num degredo sem igual.
Conta a lenda que o autor escreveu este livro de seguida, num rolo de papel que lhe permitia poupar o tempo de mudar as folhas na máquina de escrever. Fê-lo durante três semanas ininterruptas, afundado em café e benzedrina, tendo deixado esse ritmo para sempre emprenhado na narração alucinada das aventuras que se prolongaram por vários anos da sua vida. Falamos do final dos anos 40, dos tempos tenebrosos que se seguiram à II Guerra Mundial, quando o sentido de humanidade ganha uma nova dimensão perante a existência de uma bomba que mata milhares de vidas em meros segundos. Visto à luz desta realidade, o desejo de destruição de Dean Moriarty, a atracção catártica pela ruína e o sonho de envolver todos os anseios humanos numa postura sem espartilhos de qualquer espécie, que acabou por estar na origem da geração beatnik, faz todo o sentido. A relação de Dean Moriarty e Sal Paradise lembra o niilismo de Nietzsche e remete-nos para o inequívoco vazio que se instalou no pós-guerra. Estas duas personagens dão asas à liberdade amoral de tudo o que nunca terei coragem de fazer. E, só por isso, foi um prazer fazer-lhes companhia pela estrada fora. 
"Pela Estrada Fora" foi publicado originalmente a 5 de Setembro de 1957. Faz hoje exactamente 57 anos.
05
Set14

Quando a Leonor morreu


vanita

Quando a Leonor morreu o mundo ficou cor-de-rosa. Foi um gesto espontâneo, de despedida de uma menina que viveu a acreditar em princesas. Quando a Leonor morreu, levou com ela o mundo de fantasia e o cor-de-rosa deixou de ser doce como o seu sorriso. Ele estava lá, mas já não era o cor-de-rosa da menina ingénua e sorridente que nunca baixou os braços na luta inglória contra a pior das doenças. Quando a Leonor morreu, veio ao de cima o negrume que cobre a existência humana e o cor-de-rosa foi ficando esbatido. Os homens não são cor-de-rosa, Leonor. Chorar a tua morte choca-os e desiquilibra as balanças avariadas dos seres humanos. Mas não fiques triste, querida. A única razão porque o mundo deixou de ser cor-de-rosa, é porque estamos todos tristes com a tua ausência. A tua e a de todos os meninos e meninas - e adultos que um dia também foram meninos e meninas - que o cancro levou. Estamos perdidos apenas porque tu nos davas esperança. Quando olhávamos para ti e para a forma como sempre encaraste esse monstro, fizeste-nos acreditar no impossível. Descansa em paz, bebé. A tua missão foi cumprida e será lembrada no sorriso de cada um de nós.

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