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caixa dos segredos

01
Ago14

Llosa depois de Cortàzar


vanita


O mundo é sacudido com um abanão digno de terramoto depois de lermos Julio Cortázar. Nada volta a ser igual. Depois da hecatombe, o equilíbrio até pode voltar a existir, mas nada permanece no lugar que ocupava antes. É como se a Terra encontrasse uma nova posição para descansar. Ora, neste novo mundo, ler Mario Vargas Llosa pode ser ingrato. Sobretudo se o livro que se segue for posterior ao título de Nobel da Literatura, como é o caso de "O Herói Discreto", que li depois de "O Jogo do Mundo - Rayuela", de Julio Cortàzar. Não li apenas o mais recente romance de Llosa, mas também todas as entrevistas que o autor deu na última semana a propósito da passagem por Lisboa e da atribuição do doutoramento honoris causa pela Universidade Nova de Lisboa. Diz Vargas Llosa à revista Atual, do Expresso:

"Com o tempo, passei a poder dedicar-me só à minha escrita, mas nunca gostei da ideia do escritor encerrado num quarto revestido de cortiça, como Proust. Nada disso. Eu gosto de ter pelo menos um pé na rua, na história que se vai fazendo a cada dia. É o que me leva a manter relações com a imprensa. Uma forma de não me desconectar da vida real".

A minha alma de repórter aplaude esta postura, também não gosto de perder o pé e de diálogos tão intelectuais que se distanciam por completo da vida do dia-a-dia e, por isso mesmo, são falíveis e, não raras vezes, responsáveis por raciocínios que partem de pressupostos errados e nos conduzem a ideias e convicções irreais e sem qualquer fundamento. Apesar da concordância com Mario Vargas Llosa, sobretudo porque a leitura deste romance que elogia a moral do homem comum se segue à viagem experimental que abala convicções de Cortàzar, não consigo deixar de ser um pouco dura com este livro. Está bem escrito, tem argumento mas é esforçado - creio que tanto para o leitor como para o escritor. Há ideias e cenas repetidas até à exaustão, a trama desvenda-se a pouco mais de meio do livro e, até ao final assiste-se a um encher de páginas que chega a ser penoso. É Llosa, está bem escrito, vale a pena ler e recomendo a quem quiser um bom romance para fazer companhia na praia. Mas veio depois de Cortàzar e, depois de um terramoto, nada fica no seu lugar. Nem o Nobel.

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