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16.07.14

Da estupidez

por vanita
Tenho 14 livros na mesa de cabeceira. Catorze. À espera de serem lidos. E só me apetece ler os que não tenho. Saudades do tempo em que lia um de cada vez. Ainda ontem tive que me obrigar a sair de uma loja sem trazer mais um que, de certeza, hoje já estaria bem adiantado. Tenho de me reeducar.
publicado às 19:20

16.07.14

Sinais dos tempos

por vanita

Ao sair do táxi não consegui evitar pensar que 2014 - tinha acabado de dizer a data para o recibo - era uma daquelas datas que me faziam divagar por algumas horas em criança. Na altura pensava em como seria a vida em 1911 ou 1914, as datas em que os meus avós tinham nascido, em que se tinham dado grandes guerras a nível mundial e em que se viveram momentos de crise de tal ordem que as pessoas tinham de se abastecer de mantimentos com base em senhas de refeição. Em 1970 e troca-o-passo, os anos da década de 10 pareciam-me tudo menos possíveis. Como se teria existido em anos que são o início do século? Era-se muito velho nessa altura. Este era o meu pensamento de criança, enquanto tentava abarcar uma realidade para lá da minha existência, um exercício demasiado exigente e elaborado a que não me esquivava. Pelo contrário, fazia parte da minha forma de estar, acho que ainda faz. Gosto de imaginar e de me deixar viajar por tempos que não são os meus.

 

Estava eu a contar. Ao dizer a data ao taxista, não pude deixar de pensar que também eu sou agora filha dos tempos velhos, aqueles que ditam o início de um século, aqueles que as gerações futuras terão dificuldade em conceber. A vida é tramada. Filha dos melhores tempos, que são os mais evoluídos de um fim de século, dou por mim no arranque de um outro século que não irei ver como termina. Raio de sorte. Perdida neste pensamentos, sou surpreendida pelo meu colega de trabalho que - não sei se era do sol, podia ser - também estava embrenhado em questões metafísicas e filosóficas. "Já reparaste que agora não sabemos viver sem telemóveis? Ainda ontem estava a pensar como é que fazíamos antes de existir esta coisa de estarmos sempre contactáveis".

 

E é verdade. Há nem tantos anos quanto isso, a vida era total e radicalmente diferente. Mais, atrevo-me a constatar que, nos últimos 15 anos, a nossa vida mudou mais do que a diferença que existiu na forma de estar dos nossos avós para os nossos pais. Parece que foi há muitas décadas, mas quando entrei na faculdade, menina, com 18 anos acabados de fazer, não havia telemóveis, a Internet estava a dar os primeiros passos e ainda não existia nada que se assemelhasse à web 2.0, o Facebook era uma realidade inconcebível e a nossa vida não era melhor nem pior do que agora. Existíamos tal como existimos neste momento. Com a diferença de que fazíamos uma gestão diferente das emoções. Quando vim para a faculdade, deixei a minha terra e me mudei para Lisboa, falava apenas uma a duas vezes por semana com a minha mãe, por telefone fixo. E nem por isso era um drama. Perdia-me na cidade e não tinha a quem ligar de forma imediata para me encontrarem, marcava encontros com os amigos por telefone fixo e as coisas davam-se e, melhor que tudo, quando não se davam, agia-se de acordo com o que a vida nos trazia. E havia histórias para contar. Não de imediato no Facebook, mas no próximo encontro ou no próximo telefonema. Que podia ser dali a dois dias ou a duas semanas. O tempo corria de forma diferente.

 

Tudo isto para notar que, talvez porque o calor não me dá tréguas e tenho pensado mais nisto, esta nova era não nos dá tempo para sermos nós mesmo nem para amadurecer o que somos ou sentimos. Se algo ou alguém nos falha, a reacção é imediata e não nos permitimos o repouso emocional e o apaziguar das sensações. Precisamos dos likes do Facebook ou Instagram para sentir que somos compreendidos e que temos razão, mas não nos damos espaço para entendermos o que sentimos. Estamos tão preocupados com o imediato, com o presente, que ainda não reparámos que estamos a ditar o início de um novo século. Estamos tão centrados no nosso próprio umbigo que não extrapolamos para o futuro, não vemos para lá do momento presente nem sentimos a responsabilidade do que iremos necessariamente deixar como património para as gerações futuras. Queremos a aprovação de sermos perfeitos. Queremos ser independentes, ter uma profissão que valha a aprovação dos amigos e conhecidos, ganhar muito dinheiro, gerar fama e nunca, mas mesmo nunca, pensamos no legado que podemos e devemos deixar para quem fica. Quando dermos por nós, passou.

publicado às 18:18

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