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08.04.14

10 dicas para ler "Guerra e Paz" de Tolstoi

por vanita

Eu tinha prometido, portanto, aqui vai o meu pequeno contributo para quem ainda não se aventurou na leitura daquele que é considerado um dos maiores clássicos da literatura russa. Deixem-me ressalvar apenas que não me vou pronunciar sobre a riqueza do texto, as maravilhas da estrutura da obra ou as reflexões, militares, emocionais, psicológicas e filosóficas de Lev Tólstoi. Ler o "Guerra e Paz" é uma experiência única, pessoal e pouco há a acrescentar a tanto que foi sendo dito e ainda se diz sobre esta espécie de ensaio histórico que aborda a invasão das tropas de Napoleão à Rússia e a sua entrada em Moscovo. Não tenho formação para fazer uma análise literária e nem é isso que pretendo. Feito o esclarecimento, aqui ficam algumas dicas para quem, como eu, pretende um dia saber do que se fala.

 

  1. Antes de mais nada, é preciso ter disponibilidade. Disponibilidade mental para embarcar na leitura de um livro que, na melhor das hipóteses, se encontra dividido por dois generosos volumes. Entre 1200 páginas a cerca de 1600, são as ofertas que existem nas traduções portuguesas. Esqueçam essa coisa de já estarem habituados a devorar calhamaços ao pequeno-almoço. Aqui nem sempre será assim tão fácil. Mas quando digo disponibilidade também falo de tempo. Pela minha experiência, não acredito que seja boa ideia intercalar a leitura desta obra com outros livros, sob pena de nunca chegarem ao fim de linha. A mim, levou-me três meses. Parece muito? Não é. 
  2. Por outro lado, nada de fazer bichos de sete cabeças por causa da dimensão do livro. O tamanho não é tudo. Se na altura em que foi escrito, o "Guerra e Paz" se assumia como um colosso pelo seu tamanho e quantidade de páginas, hoje em dia o que não falta são romances de muitas centenas de páginas a encher os escaparates das livrarias. E nem por isso deixamos de os ler num ápice. É com esse espírito que devem seguir para este livro.
  3. Nada de pressas. Isto não é uma corrida e embora cada vez mais pessoas tenham o hábito de ler um livro ao almoço e outro ao jantar, tal a velocidade com que devoram tudo o que lhes aparece à frente, o "Guerra e Paz" é um livro que requer um ritmo próprio e deve ser digerido de acordo com disposição do leitor. Há momentos que se lêem de uma assentada, tal como estamos habituados, mas há muitos, bastantes mesmo, que obrigam a pousar o livro e deixá-lo de lado durante um bom bocado. Lembrem-se que esta é uma obra que levou sete anos a ser escrita. Levem o vosso tempo, não há qualquer mal nisso. Ah, e volto a dizer: nestes momentos, resistam à tentação de agarrar noutro livro. 
  4. Escolham bem a edição que querem ler. Este é um dos conselhos que ninguém me deu antes de me atirar de cabeça neste desafio mas que me apercebi imediatamente do quão importante pode ser para que esta experiência corra bem. Ainda assim, penso que a minha opção, embora com falhas, foi a que melhor se ajusta a mim. Basicamente, em Portugal existem duas traduções directas do russo para português. Uma é editada pela Presença, por Nina e Filipe Guerra, e divide-se por quatro volumes. A outra é mais recente e é assinada por António Pescada, disponível em dois volumes editados pela Relógio D'Água. Li a da Presença.
  5. A tradução conta. Até aqui o mundo das traduções era inexistente para mim e apenas posso opinar acerca da edição da Presença. Lamento a quantidade de erros, gralhas e faltas de concordâncias que existem num livro como este. Ainda assim, acredito que foi uma boa escolha porque, movida pela curiosidade, espreitei a da Relógio D'Água e a mancha de texto não me agradou, talvez por estar compilado em dois volumes e não em quatro. Atendendo a que partes do livro são maçadoras, não vos vou mentir, prefiro a versão em quatro volumes. Com as ressalvas que já mencionei.
  6. No primeiro volume, deixem-se contagiar pelas descrições psicológicas das personagens de Tolstoi. Qual hereges, sentir-se-ão tentados a comparar a história apresentada inicialmente com a "Guerra dos Tronos", de George RR Martin, ou qualquer outro épico de estratégia militar, onde o romance e a intriga são palco para alianças determinantes para o campo de batalha. É compreensível que a ideia vos passe timidamente pela cabeça, mas irão perceber que não poderiam estar mais errados. A seu tempo. Agora é altura de desfrutar de todo o talento de Tolstoi para descrever as emoções, os medos e anseios de cada uma das personagens. Ah, e as intrigas da alta sociedade? Há alguma coisa mais deliciosa?
  7. O conceito dramalhão russo ser-vos-á servido de bandeja no segundo volume. Tem tanto de bom quanto de mau. Se por um lado vos enche de vergonha alheia, pela semelhança com a mais vulgar novela brasileira de horário nobre, por outro, nada como entregarem-se ao sentimento e descobrir que, por alguma razão, o romantismo exacerbado ainda hoje é uma arma para a conquista de audiências. Seja em que formato for. O segundo livro lê-se de uma assentada e é impossível sair incólume de todas as ironias e batalhas a que somos expostos. E quando falo de batalhas, não me refiro apenas às invasões russas. Há grandes conflitos pessoais e de personalidade a que não vão ficar indiferentes. Dou-vos um cheirinho. Sabiam que, apesar de combaterem a invasão das tropas francesas, a classe russa mais abastada continuava a falar e a aprender francês, considerada a língua das pessoas cultas?
  8. Bebam chá. Descansem e façam uma pausa sempre que for necessário. A descrição meticulosa de estratégias militares pode ser cansativa e isso começa a notar-se a partir do terceiro volume. O meu conselho? Entrem no espírito da coisa e vejam em Tolstoi um velho professor com muito para ensinar. Ele fá-lo de forma muito interessante, se estiverem dispostos a entender a mensagem que está a passar. As mensagens. Porque são imensas e vale a pena viver a experiência sem dar parte de fraco. Além disso, o romance ajuda a levar a bagagem às costas.
  9. Não desistam. Chegaram até aqui, não vão desistir agora. No quarto volume terão duas certezas: este não é um romance histórico, talvez seja um ensaio ou até uma reflexão, mas não cabe no formato de romance de ficção, como já nos vínhamos a aperceber; Lev Tolstói não conhece o conceito de climax mas, quanto a isso, não me quero pronunciar mais. Peço-vos apenas para não desistirem quando a leitura se tornar mais difícil. Afinal estão a ler um grande clássico da literatura e isso é obra.
  10. Parabéns! Vivam a experiência. É única, pessoal e intransmissível. Amem, odeiem, sejam indiferentes. Vocês decidem. Sejam resistentes e não cedam ao bullying de serem obrigados a gostar de uma grande obra-prima da literatura. Façam disso uma escolha vossa.

 

publicado às 23:51

08.04.14

Hoje estreia a quarta temporada da Guerra dos Tronos

por vanita
É uma iniciativa que mostra a adaptação aos tempos. Com apenas dois dias de diferença, o Syfy Portugal combate a pirataria - ou tenta - com a estreia da quarta temporada da Guerra dos Tronos. Eu também lá vou estar, sentadinha à frente da televisão para ver o primeiro episódio e todos os que se seguirem. Mas não deixo de achar piada aos fãs sôfregos, que morrem de medo de spoilers. Se isto não é sinal da preguiça social, também destes tempos de agora. Ler os livros é coisa que não passa pela cabeça destes fãs. E isso é apenas triste.
publicado às 09:21

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