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16.03.14

Foi há 18 anos e eu já tenho quase 36

por vanita

O nó que se formou na garganta estrangula-me a respiração até hoje. As lágrimas que teimei em segurar naquele dia, teimam soltar-se a cada momento, todos os dias. Sair de casa dos pais, com apenas 18 anos, para ir estudar na cidade grande pode ser muito idílico e trazer frutos que valem a pena ser colhidos, mas nunca deixará de se assemelhar a uma poda. Somos, eu e os meus, meros ramos cortados para que a árvore possa florir. Era uma menina, a mais velha de três irmãos, por isso, coube-me a mim a dor da primeira separação. Sem pieguice, mas uma separação. E, o que aconteceu ontem, foi há 18 anos e eu já tenho quase 36. A mesma idade que a minha mãe tinha então. Foi ontem, foi há uma vida.

 

Passou a correr e no meio de tantas conquistas, há tanto que ficou por fazer. Estou há mais anos nesta vida de fim-de-semana cá, fim-de-semana lá, do que aqueles que vivi na terra dos meus pais. E não, nunca deixei de visitar a família como nos primeiros tempos, nem pretendo deixar de o fazer. Mas crescemos todos, mudámos o que somos e continuamos a ter sonhos. Ainda assim, já é possível fazer balanços e avaliar caminhos.

 

  • O tempo passa mais depressa dos 18 aos 36 do que dos zero aos 18. Não damos por isso, porque finalmente começamos a dar passos com que sempre sonhámos. Quando nos apercebemos, temos 25 anos e a ilusão de que o mundo se rende a nossos pés. Talvez seja mesmo verdade. Aos 20 o mundo é nosso. Há que parar e perceber porquê.
  • As escolhas determinam o caminho. Na altura não nos apercebemos do impacto, mas todas as nossas escolhas são determinantes para o caminho que vamos seguir. Tendo em conta a velocidade a que a coisa se dá, convém usar de bom senso e ponderar bem o que se quer. E isto é válido para amizades, amores, escolhas profissionais e até para questões tão fúteis como fumar, beber e meras noitadas. Quando chegamos aos 36 percebemos por que razão alguns envelheceram melhor.
  • Se temos um sonho, devemos persegui-lo. O tempo, como já disse, não se apazigua com as nossas indecisões nem espera por nós. Enquanto nos debatemos com dúvidas e ansiedades, o comboio passa e as oportunidades não se repetem. Se é por aí que queremos ir, temos de o fazer. Sem medos. Ninguém o fará por nós. Todos os outros estão envolvidos nas suas próprias conquistas e isso nem sequer é mau.
  • As amizades são mesmo o melhor do mundo. E há que saber escolhê-las e, até, podá-las. Algumas das pessoas com que nos cruzamos aos 18 vão continuar a acompanhar-nos até aos 36, pelo menos. Outras ficam pelo caminho. Devemos saber alimentar as amizades e tratar os outros como gostamos que nos tratem a nós. Aqueles que se preocupam e mostram o seu carinho nos momentos maus, são tesouros que devemos guardar e cuidar com a mesma dedicação. Quem nos procura de forma egoista e egocêntrica, nem tanto assim.
  • O amor é uma peça essencial. Há quem o encontre à primeira, há quem bata muito com a cabeça até chegar a bom porto e há até quem opte por viver sozinho, mas nunca sem amor. A primeira lição a aprender, ou a última, depende dos casos, é a amar-nos a nós mesmos. Só depois de conseguirmos ser felizes connosco é que estamos aptos a sê-lo com outro. E isto é mesmo verdade. Não devemos ter medo de ser sozinhos: ir ao cinema, ao teatro ou a um concerto sem outra companhia, pedir mesa para um num restaurante, marcar férias a solo. Tudo isto faz parte do crescimento pessoal. Ajuda-nos a conhecermo-nos melhor e a aceitarmo-nos como somos. É daqui que advém essa coisa que chamam felicidade. Dessa aceitação pessoal.
  • Sim, sofremos de amor. De uma maneira ou de outra, todos teremos o coração partido a determinada altura. E dói, dói muito. Não há forma de apaziguar esse sofrimento. Mais uma vez, é um caminho que deve ser percorrido. Não se deve tentar camuflar o luto com uma nova relação. O luto é essencial para o passo seguinte e deve ter o seu espaço.
  • Sim, também fazemos lutos verdadeiros. Em 18 anos nada se mantém como antes. Muitos dos nossos amigos casam e têm filhos, alguns até se divorciam e voltam a juntar. Mas também as pessoas de quem gostamos mudam e, algumas delas, morrem. E essa é a maior provação por que passamos. Até aos 18 anos, salvo um ou outro caso que nos parecem excepções, a vida corre sem grandes transtornos. A partir dos 18, a morte também passa a fazer parte da nossa vida. E há que aprender a lidar com isso, dentro da medida do possível. A perplexidade da ausência do outro tolda-nos mas há que saber como nos podemos levantar desse golpe baixo da vida. Há que criar defesas e perceber que, também nós, estamos cá por tempo determinado. Há que o aproveitar da melhor forma e lutar para ter uma vida cheia e feliz.
  • A frustação e os sapos que se engolem são uma realidade. Sim, a determinada altura podemos acreditar que temos o rei na barriga, mas se há algo que é garantido são os sapos que todos teremos de engolir, mais tarde ou mais cedo. Sobretudo no mundo laboral. Não há como contornar e não é fácil de digerir. Mas depois de atravessado na garganta, só há um caminho e é esse mesmo. Não, não vem nada de bom daí, apenas a experiência, que nos ensina a avaliar melhor o mundo com que nos deparamos. E isso aprende-se sozinho.
  • Nem todos seremos pais e isso não é sinal de falhanço. Muitos de nós construímos famílias e esse será o caminho natural da maior das pessoas da nossa geração. Mas nem todos. E embora a sociedade tenda a rotular quem não o faz, há que aprender a superar essa pressão. Ter filhos é uma opção para toda a vida e deve ser tomada de forma responsável e consciente, não para agradar aos pais, ao marido ou aos amigos. A sério, não é mesmo por aí.
  • A família será sempre o pilar primordial. Quando tudo falhar, quando tudo ruir mesmo, é a família que lá está. Mima-a sempre.

Não, não sou uma pessoa idosa, embora por vezes sinta que tenho 100 anos. Nada do que digo é novo e cada um fará o seu próprio percurso. Acredito apenas que o nó na garganta não desaparece e que quanto mais tivermos noção disso, tanto melhor. Se as lágrimas tiverem de cair, que caiam. Mas que nunca deixemos de nos levantar, mesmo quando já passaram 18 anos.

publicado às 19:40

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