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03.02.14

Serei o Marthin Luther King da minha aldeia?

por vanita

Às vezes oiço coisas que me deixam a pensar durante muitos dias. Pela perplexidade e surpresa do que é dito, quase que sento o cérebro expandir com as novas realidades que me são dadas a conhecer. E digo isto porque, quando alguma ideia ou postura abala as minhas convicções ideológicas, demoro a assimilar toda a realidade que este pequeno tremor de terra acarreta.

Na verdade, sempre acreditei que os valores basilares - morais e de princípios - são indiscutíveis. Cumpram-se ou não, sejam mais ou menos entendidos pela população "reinante", o que é bom e mau, moral e amoral, é-o tanto hoje como o era em tempos das civilizações mais antigas ou será daqui a muitos milhares de anos. Não me estou a explicar bem? Vou dar o exemplo da escravidão humana, que deve ser o mais gráfico e fácil de compreender. Quer se queira, quer não - por todas as razões culturais ou de educação que levaram a que tenha sido possível em tantos períodos da História -, não é difícil entender que um ser humano não tem direito de abusar de outro nem deve tratá-lo como se fosse de "categoria inferior" seja sob que justificação for.

Ora bem, o que ouvi que me deixou a pensar abala esta convicção na universalidade dos valores e princípios que nos regem. Porque, quando oiço várias pessoas na mesma mesa defender, com garra e genica, que sim senhor, os homossexuais têm direito a viver as suas vidas como bem entendem mas que - e aqui o discurso sobe de tom com eloquência - "deve ser criado um estatuto jurídico diferente do casamento para estes casos, porque o casamento foi criado com um intuito diferente onde se prevê a procriação", o meu mundo sofre um fanico na escala máxima de Richter. Fico incrédula enquanto oiço os discursos de prazer pela concordância dos elementos que ouvem e acenam afirmativamente, crentes de que esta é a solução: "Porque os homossexuais também têm direitos fiscais, mas o amor... o amor é outra coisa". Eles felizes, eu doente.

Ainda com a cabeça a latejar, tento assimilar o momento que se segue. Estamos em dia de chocalhanço de ideias, toma lá mais uma, assim, sem anestesia: "Ah, eu sou mãozinha de vaca. Sou adepto daquele moço que quando combinava um piquenique com os amigos, dizia que levava tudo mas depois chegava sempre de mãos a abanar e se fartava de comer à grande com o que os outros levavam". A sério? Existem pessoas assim? Existem pessoas que se orgulham de ser assim? Pessoas MUITO RICAS, que não têm pudor de ser assim? Esperem aí, que tenho de estabilizar.

Nunca houve muito dinheiro lá em casa, mas esta realidade vai contra tudo o que sempre acreditei serem os bons modos, a boas maneiras, a boa educação e, até, os bons sentimentos. Sempre aprendi a partilhar, a dar o melhor e a não abusar da boa vontade alheia. Tenho vergonha de o fazer. Penso sempre nos outros e, não raras vezes, fico mal para que todos fiquem bem. Gosto de dar presentes de aniversário aos amigos, gosto de levar um presente aos anfitriões dos jantares, gosto de receber bem. E sim, já me tinha cruzado com pessoas para quem isso não tem assim tanta importância, mas sempre pensei que essa postura fosse acompanhada de um qualquer sentimento de culpa ou alguma vergonha. Gente rica que se orgulha de ter dinheiro porque é forreta, forreta neste sentido abjecto do termo, causa-me náuseas.

Aliás, é assim que me tenho sentido nos últimos dias. Porque é-me mais difícil acreditar num Mundo melhor, num Mundo com futuro, quando percebemos que, afinal, os valores não são universais e que é o individualismo e o chico-espertismo que reinam. É vergonha que sinto. E ainda não assimilei bem esta nova realidade.

publicado às 23:09

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