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caixa dos segredos

19
Set13

Porque a vida é feita de mudanças


vanita

Se aos cinco anos achamos que somos grandes, já não somos bebés e temos razão, porque é que o resto do mundo se ri? É verdade.
Quando passamos do primeiro para o segundo ciclo, mudamos de escola, aprendemos a ler um horário e percebemos que nunca mais teremos apenas um professor que acompanha o nosso ritmo e nos tenta ensinar de acordo com o que somos. Percebemos a responsabilidade e há uma certeza que nos transcende: somos crescidos! O mundo, esse, insiste no sorriso condescendente. Como se fosse mentira.
O que dizer do conturbado período da pré, pós e adolescência efectiva? Lidamos com todas as perguntas e inseguranças, dúvidas e angústias, testamos limites, fazemos descobertas e maravilhamo-nos todos os dias com uma transformação que mais ninguém parece dar conta. Aliás, todos sabem que adolescente é quase sinónimo de miúdos irritantes com a mania que são alguém. Mas quem dúvida que são mesmo alguém?
Não muda quando se entra para a universidade ou se ingressa na vida activa. Cheios das novas responsabilidades, radiantes com o carimbo de adulto no Cartão do Cidadão assim que se completa 18 anos, entusiasmados com as cartas de condução e as liberdades recém-adquiridas somos senhores e reis do mundo. Desta vez é inegável: somos adultos, fazemos parte da sociedade, votamos e sabemos os nossos direitos. Então porque é que nos continuam a olhar com o ar de sempre?
Aos olhos do tal mundo, os mais novos nunca crescem. E por mais que tenha quase 35 anos, que esteja convicta de que vivi mais do que muitos de 80, há toda uma multidão descrente, porque é disto que a sociedade é feita. Por isso é que, sem desprezar ninguém, é importante que saibamos trilhar o nosso próprio caminho, acreditar nas nossas conquistas e deixarmo-nos contagiar pela alegria de cada etapa. Porque também nós nos rimos da criança de cinco anos que diz que já não é bebé. E porque, se chegarmos aos 80, havemos de sorrir com as palermices dos que têm quase 35.
19
Set13

"Dentro do Deserto", de José Luís Peixoto


vanita

 

Mais do que um segredo, este livro é uma mistura de sentimentos. Há tanto para dizer que é difícil organizar o pensamento e estruturar uma opinião concertada, com alguma utilidade. Este não é um livro normal, é uma obra de não-ficção, quase mascarada de reportagem mas impregnada do cunho pessoal daquele que é um dos escritores portugueses mais reconhecidos da actualidade. Começa aqui a confusão: José Luís Peixoto não é jornalista nem pretende ser. Está tudo muito bem, não se desse o facto de este ser um livro que aborda uma realidade a que muito poucos têm acesso: a necessidade de informação credível e fundamentada é uma constante, um imperativo. Infelizmente, são demasiadas as situações em que o autor não está à altura do que se propõe. E não está por sua culpa mas porque, além de limitado quer em termos materiais quer de movimentos, não tem - e isso é evidente - a formação necessária para dar ao leitor o que ele precisa enquanto o acompanha nesta viagem turística à Coreia do Norte. 

 

Como escritor que é, José Luís Peixoto leva-nos com ele numa viagem de pouco mais de 200 páginas - impressas em folhas com uma gramagem bem superior ao usual - ao que o governo norte-coreano decidiu que podia ser mostrado a um grupo de cerca de 20 curiosos estrangeiros. Sem liberdade de movimentos, sem telemóvel, impedido de tirar fotografias, o autor descreve o que vê, mistura com o que sente e conta-nos o que viveu durante aqueles dias. E é uma surpresa descobrir que ainda se vive daquela forma algures no planeta Terra, dói adivinhar o que se esconde por detrás das fachadas apresentadas aos visitantes. Nenhuma dúvida quanto a isto. Neste momento, em pleno século XXI, existe um país onde o pior pesadelo de George Orwell, recriado em 1984, é uma realidade. Uma realidade. É chocante descobri-lo, é importante dar-lhe voz. 

 

A mistura de sentimentos que o livro provoca surge aqui: durante a leitura de "Dentro do Deserto" a nossa identidade passa a ser a de José Luís Peixoto. Temos fome quando ele tem fome, distraímo-nos quando ele está aborrecido, deixamos de tomar atenção quando o assunto não o cativa. Também dançamos com ele, provamos comida que não queremos de todo comer, sofremos com as saudades dos seus filhos. Isto é mérito do escritor, que brinca com as palavras quando as notas que tirou durante a viagem lhe permitem essa divagação. E eis que estamos perante uma das notas menos positivas: é fácil perceber quando temos o bloco de notas de José Luís Peixoto nas mãos. É ainda mais fácil distinguir os momentos que são escritos de memória e quase que se sente o quanto ela nos escapa por entre os dedos. Se até estes sentimentos são uma boa experiência enquanto leitor? Claro que sim. Mas resultam em frustração quanto àquele que é um dos propósitos do livro: relatar uma realidade acessível a um número limitado de pessoas. O desinteresse do autor resulta em ausência de informação e, por consequência, em perda para o leitor. 

 

É uma viagem que vale a pena fazer, é uma certeza. Mas fica o gosto amargo de se querer mais, de se esperar mais. Ainda assim, resta a convicção de que não saímos iguais deste livro. Não se pode ficar indiferente.

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