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caixa dos segredos

19
Abr08

Fechou-se um ciclo


vanita

A vida é assim. Traquina, traiçoeira e, de certa forma, reguila. É sempre quando menos esperamos, quando já não pensamos sequer nas coisas, que elas acontecem. Podemos sofrer horrores, preparar-nos mentalmente para a inevitabilidade do que um dia terá de acontecer, que é só quando já nada disso nos povoa a mente, nos tolda os pensamentos, que tudo acontece. Quando menos esperamos. Hoje não foi diferente. O ponto final foi quase imperceptível, mas está lá. Já ninguém o tira. E por muito arbitrário que pareça, basta pensar um bocadinho, para perceber que tudo faz sentido. Faz tanto sentido...
19
Abr08

O que é o amor?


vanita

"Apaixonei-me pela primeira vez há dois anos!". A confissão é do taxista que hoje me trouxe a casa. Do alto dos seus 43 anos, o senhor abriu-me o coração - afinal, eu ia para a zona dele e, assim, ele também podia ficar já em casa - e falou-me dos três casamentos que teve. Em nenhum deles provou o sabor do amor, jura. Jura pela alma do filho. Sim, no meio da eloquência o discurso fica mais embargado, mas de forma quase imperceptível, e o meu taxista - acho que já o posso tratar assim - diz-me que perdeu o único filho há cinco anos. O amor, esse grande desconhecido até então, só o conheceu depois. Apaixonou-se por uma colega de trabalho. E aquilo foi uma coisa à grande, como manda o figurino. "Pode soar-lhe mal menina, mas nunca na minha vida pus a hipótese de sofrer por uma mulher", solta, com olhos rasos de lágrimas. Desde lavar roupa, a estendê-la, conhecer os pais da rapariga - já tinha 32 anos, mas ele vê-a como uma menina - até a pôr a mesa. Este homem transformou-se. "Eu que, quando tomo banho, deixo a casa-de-banho numa desgraça", destaca, para que se perceba que houve ali empenho. Mas teve de pôr um fim à relação. Não explica porquê. Fica calado, apenas. Pára o taxímetro e recusa-se a deixar-me levantar dinheiro, já que não tenho que chegue para a corrida. "Nem pensar! Acha que é todos os dias que se encontram pessoas assim, com quem se pode falar?". É imperativo e eu faço o que me compete: ouço-o! "É muito sofrimento menina. Muito", continua. "A nível sexual, não posso dizer que fosse a melhor experiência. Mas de resto, era tudo o que eu podia esperar!". O tom é de desalento. Nota-se que o taxista está perdido. "Já tive uma psiquiatra que me disse que se o meu filho não tivesse morrido, eu nunca me teria apaixonado de verdade", analisa. Eu concordo e, amiga, garanto-lhe que depois deste desgosto vem outra paixão. Quem sabe ainda maior. "Acredita se lhe disser que eu não sabia o que era o amor até ali? Não sabia o que era amar!". Acredito, claro que acredito. Mas é sempre possível haver um amor depois de outro. "Deus a oiça, menina. Deus a oiça". Vai ouvir! Porquê? Porque as pessoas boas têm sempre direito a serem felizes. E o meu taxista é uma pessoa boa.

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