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caixa dos segredos

27
Out17

Tratei um professor catedrático por você


vanita

Na minha terra, onde cresci, o tratamento por você era reservado aos avós e às pessoas com quem fazíamos mais cerimónia. Num sítio onde todos se tratam por tu, onde ainda havia poucos doutores e académicos que se distinguissem dos demais, o tratamento por você era o mais elevado que se usava no dia-a-dia. Acima disso, só a senhora professora e o senhor doutor, reservado a médicos ou advogados. Assim sendo, e por incrível que pareça, só muito recentemente percebi que, em determinadas franjas da sociedade, nomeadamente no meio académico, o tratamento por você é considerado menor e rude. Ao espanto, seguiu-se a vergonha: quantas vezes não assumi eu o tratamento por você com a reverência que me foi incutida desde sempre? Teria, em todas essas ocasiões, sido sempre alvo de repúdio ou chacota? Como é que nunca me tinha apercebido? Analisando, notei que talvez não me tenha realmente cruzado assim tanto com essa franja que se confrange com esse tipo de situações. A minha frequência universitária foi praticamente omissa nesse contacto catedrático e reverente e o meio profissional que segui assumia a postura mais informal possível. Os jornalistas não usam títulos no trato com as pessoas e, maioritariamente, privilegiam o tratamento na segunda pessoa do singular. É pois, possível que tenha vivido numa pequena redoma que me deixou fora destas balizas que rapidamente nos atiram para a gaveta de saloios ou pouco polidos. Mas, se o comportamento advém da aculturação do meio onde se vive, deverá passar pelo escrutínio de outros grupos com valores distintos? Como se determina o comportamento dominante? Ou, entrando num novo grupo, o indivíduo deve adaptar-se sem senão às regras definidas, sob pena de ser desconsiderado? A sociologia diz que sim, que são essas algumas das condicionantes do comportamento de grupos, mas será justo? Ou será que a auto-censura que imprimo a mim mesma quando me apercebo que acabo de tratar um professor catedrático de renome por você - reflexo de um comportamento apreendido desde a infância - não renega e desonra as origens? E quando se usa o tratamento por você para perguntar se o tal professor não gosta de castanhas: em que gaveta é que isso me põe?

24
Out17

Empatia


vanita

Por ter um rosto tão jovem, inocente e genuíno, o guarda-redes estreante que cometeu um erro brutal foi acarinhado pela equipa e adversários. Todos se condoeram pela má sorte naquele desaire providencial. Teria sido pela aparência? Muito provavelmente, há que assumi-lo, sim. Há caras que apelam à bondade. E quão injusto isso é para quem não tem a sorte de ter nascido com a inocência estampada no rosto. Para quem não beneficia dessa sensibilidade apenas e só porque as feições não reflectem empatia. Dá que pensar.

12
Out17

Disto de ser adulto


vanita

Depois de tanto te anulares, quando é que deixas de te reconhecer? Quando deixas de te identificar com as tuas reações, continuas a ser mesmo tu? Em que momento nos transformamos no que não gostamos? Anulando o que somos, redifinimo-nos. A que custo? Por que razão deixamos de ser? Valerá a pena?

27
Set17

O meu coração preto


vanita

Fiz escuteira durante dez anos, dos 12 aos 22. Devia ter saído quatro anos antes, no auge do que foram alguns dos melhores momentos da minha adolescência e entrada da vida adulta. Nunca voltarei a conhecer camaradagem nem espírito de equipa como o que ali se viveu, no Agrupamento 710 Benedita. Quem passou por lá comigo, naqueles tempos, entre 1992 e 2002, sabe bem do que falo e é indescritível. Há alturas na vida em que tudo se conjuga com harmonia e o mundo faz tanto sentido que chega a ser mágico. Andar nos escuteiros, sobretudo nesse tais anos que falo, de 1994 a 1996, entra nesse campo mítico que une alguns seres humanos para sempre, com laços de amizade e admiração indestrutíveis. E é por isso que ainda hoje recomendo o escutismo aos pais de todas as crianças e jovens que conheço. Porque estas experiências ficam para sempre, regem-se por bons valores e promovem a lealdade e fraternidade como forma de estar. Tudo boas bases para a formação de jovens adultos. Claro que depois veio o revés: devia de ter desistido mais cedo. Os últimos anos que vivi no escutismo não foram bons e a desilusão com as pessoas quase que afectou de forma irrevogável - não nos termos que o Paulo Portas usa - a minha crença na instituição. Saí triste e magoada com as pessoas e com o que considerava verdadeiras traições ao espírito escutista. Levei algum tempo a distinguir os defeitos de carácter individuais e a perceber que não se confundem com a estrutura que gere e orienta as ideias basilares do escutismo. As pessoas são falíveis, têm defeitos e erram inúmeras vezes. Os ideais serão sempre a bússola que os orienta. De forma mágica, em momentos raros e únicos, como um farol que nos ilumina ao longe, nos tempos mais negros. Gosto de acreditar que isto que aconteceu com o Escutismo se aplica a vários outras vertentes da nossa vida.

19
Set17

A minha contribuição para a igualdade de género


vanita

Utilizada a 25 Nov 2010.png

Tenho andado a rever a série "New Girl" e, um dia destes, assisti a um episódio em que um escandalizado Nick ensina o pobre Schmidt a lavar a roupa na máquina. Fá-lo de forma exemplar, como se fosse a coisa mais banal do dia-a-dia, perante a angustiada vergonha do amigo, por ter de assumir que não o sabe fazer. Este é um daqueles casos em que se educa pela ficção. Nenhum destes comportamentos é (ainda) norma. Os homens não se envergonham de não saber usar os aparelhos domésticos e nem aprendem a fazê-lo desde crianças. Felizmente, tendemos para isso, embora vá demorar mais do que devia até que seja realmente como está retratado neste episódio. Sabemos disso quando ouvimos comentários menos simpáticos para homens que fazem das tarefas domésticas parte da sua rotina. A sociedade ainda assume que os homens precisam de ajuda para gerir uma casa. É mais implacável com as mulheres, mas a verdade é que também se está a perder terreno nessa facção. As mães adoram mimar os filhos e, neste caso, mal. Há progenitoras que continuam a insistir em passar a ferro a roupa dos meninos - e das meninas - quando eles já saíram de casa, casaram e foram pais de filhos. Há quem insista em fazer a limpeza semanal na casa de filhos crescidos e criados. Há adultos feitos que nunca lavaram uma sanita.

 

Ora bem, esta pequena introdução conduz à minha proposta para a igualdade de género. É muito simples: que se ensinem tarefas domésticas nos primeiros anos escolares. São aulas que podem ser práticas e contribuem para o bem-estar de todos. Ser adulto também é saber limpar o pó, aspirar, lavar a roupa e fazer uma sopa. Escolher vegetais no supermercado, aprender a ler rótulos dos alimentos, saber optar pelo detergente correcto para limpar as loiças da casa de banho, passar a ferro e engraxar os sapatos. Distinguir a roupa a colocar no tambor da máquina, escolher a temperatura correcta e aprender a diferença entre um estufado de um assado. Ligar o forno, fazer um bolo, aprender a coser à mão, fazer bainhas e pôr um botão. Qualquer uma destas actividades é essencial e indispensável no dia-a-dia de um adulto. E, apesar de, nos anos mais recentes, a sociedade de consumo nos ter habituado a satisfazer as necessidades num acto de compra, o saber fazer nunca ocupou lugar. Pelo contrário, com conhecimento de causa, temos argumentos para saber escolher e avaliar o valor (monetário ou não) de cada tarefa. E é de pequenino que se torce o pepino. Com naturalidade e muita brincadeira à mistura. Porque não há razão para vivermos em mundos de fantasia, onde as necessidades básicas não fazem parte da prioridade de ensino.

 

Por isso, a minha proposta é que se eduquem a crianças a saberem ser adultas independentes e subsistentes.

 

 

13
Set17

Já vi a terceira temporada de Narcos


vanita

Está noite, foram quatro episódios de seguida. Só consegui parar quando a temporada chegou ao fim. Desenganem-se, por isso, os cépticos como eu que pensavam que, com a morte de Pablo Escobar, a série perderia ritmo e interesse. Dizem que a culpa é do produtor Jose Padilha e, de facto, confirma-se. Ficamos agarrados à trama e ao ritmo alucinante dos acontecimentos. Mérito do guião e da montagem das cenas. E sim, também há episódios menos bons, secantes até. O primeiro embate com esta temporada começa logo pela ausência do agente Murphy, a grande voz das duas primeiras temporadas e, para mim, suficiente para me agarrar ao ecrã. A presença do português Pêpe Rapazote não desilude mas não chega para o vazio que se instala nestes primeiros instantes. Ainda andamos ali uns episódios à procura de um novo caminho, agora em torno do Cartel de Cali. E há que dar os parabéns à equipa de guionistas que, depois de duas temporadas centradas numa figura ímpar e muito forte, optou por, subtilmente, mudar o foco da história. Não quero contar mais do que devo mas damos por nós a seguir histórias de personagens bem diferentes da que marcou o início da série. Com suspense, angústia e reviravoltas que nos prendem até ao episódio final. Pablo Escobar é único é inigualável mas, posso garantir, não sentimos a sua falta. Venham os cartéis do México e mais uma temporada.

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