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20.02.17

Em bicos-de-pés

por vanita

Antes de chegar a Lisboa nunca me tinha cruzado com esta expressão: em bicos-de-pés. Mas, ao longo dos tempos, tenho-me rendido ao seu significado. Nada transmite com tanta assertividade o que realmente se quer dizer nestas situações. Fala-se de pessoazinhas, metaforicamente pequeninas, que "se acham", para usar uma outra expressão que me assegura o modo corriqueiro de que este post já se veste. Pôr-se em bicos-de-pés é tentar ser mais do que realmente se é, é ousar chegar onde não se consegue tocar. Ou, para manter o tom, é não ter unhas para a coisa. É dúbia esta expressão, pela sua condescendência, que mistura no mesmo saco os de mérito com puros fanfarrões. Só não é totalmente injusta no sentido em que, até quem tem talento, o deve ter para o saber usar. Pôr-se em bicos-de-pés é, em última instância, um erro de estratégia, um tiro no pé. Quem se acha ou quem merece ser achado perde sempre mais do que ganha quando se estica para fora de pé. Vai que se afoga?

publicado às 19:44

15.02.17

O dia mais mal amado

por vanita

Pior do que o Natal, o cliché exige que se despreze o Dia dos Namorados. É piroso, é bimbo e os corações vermelhos, flores e os ursinhos de peluche causam urticária a quase toda a gente. Há mais de vinte anos, talvez trinta, que assim é. Mas elas lá estão, as montras de São Valentim, insubstituíveis, todos os anos. Não se percebe, um negócio sem clientela que insiste em subsistir. O mundo que anseia pelo amor, onde há revistas e publicações que vivem das mensagens para se encontrar o par ideal, num mundo em que todos buscamos relações profundas e que nos preencham a todos os níveis, desacredita o Dia dos Namorados, o dia em que se celebra tudo o que se procura. Posso falar disto porque nunca gostei do dia dos namorados. Mas não por achar que é foleiro, mais porque este dia sempre me lembrou o meu próprio falhanço nos quesitos do amor. Nem é pelo sentido comercial que o dia envolve - o Natal também é assim e cabe a cada um fazer a sua gestão de prioridades. Porque não havemos de fazer o mesmo no dia 14 de Fevereiro? Os mais velhos recusam com o argumento triste de que este é um dia importado. Não o viveram na sua própria infância e adolescência e não o querem adoptar. É uma batalha perdida. Mas há toda uma geração que já cresceu com São Valentim. Encará-lo com mais naturalidade e menos azedume talvez nos fizesse mais bem do que mal. Quem não se enternece com gestos de amor?

publicado às 08:25

08.02.17

Cristina Ferreira

por vanita

Elegante e sóbria como uma senadora de cinquenta anos, Cristina Ferreira despiu a roupa dos programas da manhã - quis escrever peixeira, mas achei que assim era mais justo -, pôs uns brincos caros e apanhou o cabelo. Não parecia a mesma quando anunciou a um grupo seleccionado de jornalistas que ainda não é desta que a deitam abaixo. Usou uma voz pausada e colocada em tons bem mais abaixo do que o registo que lhe é sobejamente conhecido, como que a dar um ralhete a quem ousou dizer que tinha fracassado, que a sua revista ia fechar. Cheia de raiva contida, postou agora um vídeo com esse discurso, onde a música escolhida ajuda a transmitir esta ideia fabricada de mulher de negócios ponderada e sempre à frente dos inimigos. Começou por dizer, ouve-se nesse vídeo, que é formada em comunicação social mas que, a determinada altura, optou pelo entretenimento por considerar que o jornalismo é demasiado sério. Que não se segurem mais os aplausos. Eis aqui uma bela peça de representação, que de seriedade há muito pouco. Produzida para ludibriar, Cristina Ferreira mostra-se como a mais fiel e imediata aprendiz de Donald Trump. O pós-verdade, os factos alternativos, a selecção de jornalistas, as conferências de imprensa sem direito a perguntas e a indecência de o justificar por causa do filho de oito anos. Onde estão essas palmas? Cristina Ferreira não gostou que se soubesse que a revista tinha terminado a parceria com Masemba e decide vestir-se de senadora para puxar as orelhas aos maus dos jornalistas. Alguém com esquizofrenia? Sim, estamos a falar de uma entertainer que não quis ser jornalista mas que é directora de uma revista e quer explicar aos que estão na profissão como se faz o seu trabalho, lamentando a falta de solidariedade. Afinal, na revista também trabalham jornalistas, que ainda não receberam o subsídio de natal mas sobre isso a senadora não botou faladura. Até porque, não eram admitidas perguntas. Confusos, eu também. Na dúvida é fazer como se lê nos comentários do tal vídeo e bater palmas. Diz que a Cristina é uma grande mulher, uma grande mãe e que o mundo inteiro se rói de inveja dela. É dela e do Donald Trump.

publicado às 23:53

07.02.17

O metro e o Carlos Ruiz Záfon

por vanita

Contei os dias para por as mãos em cima do mais recente livro do Carlos Ruiz Záfon, que me ofereceram no Natal. Cumpri com sacrifício a missão de terminar o que estava a ler e que não me estava a agradar por aí além e eis que, quando chega a hora de terminar a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, o tenho parado em casa há quase um mês. Um mês sem lhe tocar, tudo por causa do metro. Os transportes públicos são o melhor tempo que tenho para por as leituras em dia porque, de resto, no que sobra de trabalho e tarefas domésticas e obrigações, gosto mesmo é de dormir. O metro veio estragar-me a rotina. E porquê, perguntam vocês, interessadíssimos neste meu drama caseiro. Porque agora andamos como manadas no metro. Quem usa os transportes públicos em hora de ponta sabe do que falo. Não há civismo que sobreviva ao empurra-chega-para-lá, o novo desporto matinal dos alfacinhas. Um livro de bolso não caberia entre as multidões que coabitam em fúria nas carruagens de metro, menos ainda este pequeno calhamaço com quase mil páginas. Sei do que falo que já o trouxe a passear até à capital algumas vezes, mas sou obrigada a desistir e ainda só li a primeira parte da história. Alguém tem uma solução para isto?

publicado às 21:31

07.02.17

Experiências

por vanita

Um dia apeteceu-me deixar de tomar a iniciativa de procurar as pessoas, só para ver o que acontecia. Além das minhas próprias deduções sobre as teorias de pessoas tóxicas ou não - tema muito discutível - consegui chegar a uma descoberta que sei estar directamente relacionada com essa minha iniciativa. O meu telefone não toca.

publicado às 00:05

02.02.17

Os obsessivos transtornam-me

por vanita

Olhamos à nossa volta e, num dia de iluminada clareza de espírito, percebemos que estamos rodeados de doentes mentais. E sim, nós também estamos incluídos no grupo de malucos. Mas como a leveza com que identificamos o óbvio ainda não se desvaneceu, o facto de fazermos parte do grupo não nos transtorna por aí além. Acreditamos, todos, que somos especiais e únicos e iluminados e que o mundo gira à volta das nossas brilhantes ideias, das conquistas e do reconhecimento, do nosso corpo prefeito ou do sorriso manipulado, que as gracinhas com que um dia, quando éramos crianças, conquistámos os adultos ainda hoje são válidas. E assim seguimos, loucos de atenção, àvidos de distinção, como se nada fosse. E não é, na maior parte dos dias. Até que a clareza de espírito nos sussurra ao ouvido e percepcionamos a realidade sem lentes que ofuscam comportamentos compulsivos e pouco genuínos, que matam a naturalidade e espontaneidade. Nesse dia olhamos como quem vê pela primeira vez e temos a certeza de que nada voltará a ser como antes, não voltaremos a estar cegos. Estamos rodeados de doentes mentais. Gente que, inocentemente, se comporta de forma obsessiva na busca de atenção e reconhecimento. Gente que quer ficar numa história que só existe na própria cabeça, num enredo que mais ninguém vê ou acompanha. Estamos todos loucos. Transtornada e compulsivamente loucos.

publicado às 19:30

29.01.17

E assim começa uma guerra

por vanita

Por causa de um palhaço e uma caneta. Cidadãos detentores de green cards - que lhes dão o direito de viver e trabalhar nos Estados Unidos - estão a ser impedidos de entrar no país e mandados embora. As autoridades até já começam a confirmar posições políticas dos originários dos sete países banidos nas suas páginas de Facebook. O Iraque anunciou que vai explusar todos os norte-americanos dentro de 72 horas. Por causa de um palhaço e uma caneta.

publicado às 10:10

25.01.17

George Orwell nos tops de venda

por vanita

A tomada de posse de Donald Trump já tem um efeito colateral: as vendas do livro 1984, de George Orwell, dispararam. «Os tempos são complicados e o aviso que George Orwell emite - trata-se disso mesmo, de um aviso - é de tal forma assustador que sufoca. Seremos nós, seres humanos, capazes de deixar que isto aconteça? Não se terá esse processo já iniciado? Estaremos a tempo de o abortar? Qual o valor da nossa força?», escrevi eu em 2013, quando o li pela primeira vez. Se ainda não se dedicaram à história que está por trás da frase "Big Brother is watching you", não esperem nem mais um bocadinho. É de leitura obrigatória. 

publicado às 14:12

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