Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

caixa dos segredos

A boa vida no sofá

Comecei antes da chegada no Netflix a Portugal, mas desde então, não tenho parado. Primeiro, ao ritmo de um episódio por dia, vi e série toda do Friends. Nunca a tinha visto na totalidade e há muito que estava na minha bucket list. A SIC Mulher começou a emitir diariamente e, pronto, menos um item na minha lista. Apanhei-lhe o gosto. Seguiu-se Gilmore Girls. Há anos que queria ver todos os episódios, do início ao fim, sem perder o fio à meada. Estes vi inúmeras vezes à hora de almoço, enquanto comia a marmita que levava de casa. Óptima solução para criar melhores hábitos de alimentação, a propósito. Não estou a incluir o Game of Thrones, Under the Dome e Arrow, que sempre vi a meias com o meu namorado. Mesmo que, muitas vezes, cada um visse o seu episódio sozinho, no seu tempo livre. Vi sozinha a série Forever. Adorei mas, claro, não foi renovada. Nisto, mais uma na lista dos must-do: A Teoria do Big Bang. Gostei mesmo e ainda me falta ver as duas últimas temporadas. Sou, para sempre, fã do Sheldon Cooper. Pelo meio, vi a primeira temporada de Younger. Devorei o Downtown Abbey e desespero pelas duas últimas temporadas, embora me pareça que já vi o melhor desta série. Embasbaquei com a primeira temporada de Unbreakable Kimmy. Não cheguei ao segundo episódio da segunda temporada e já desisti. O mesmo não posso dizer de Grace & Frankie, a melhor descoberta do Netflix até agora. Ui, e como falar do Netflix sem falar de Narcos? Brutal. Foi a primeira que vimos juntos e valeu tanto a pena. A série perde metade do gás na segunda temporada mas estou confiante que ainda tem espaço para brilhar muito nas próximas. Nisto da acção também tenho de referir o The Last Kingdom, a série dos Vikings. Não sabem do que estou a falar? É para ir já procurar, que esta não tem tanta fama mas também vale muito a pena. Ah, mas a melhor corrida foi a antepenúltima. Vi todos os episódios das dez temporadas de How I Met Your Mother. Cheguei tarde, mas cheguei e delirei. E sim, como todos vocês, odiei o final e estou em negação. Vejo muitas vezes a vida pelo prisma do Barney, sabendo que no fundo sou um Ted Mosby como qualquer um de nós. Por fim, dediquei um fim-de-semana à série Stranger Things. Mais uma que pode perder com o hype mas que ainda está com as fichas todas em cima da mesa. Fiquem atentos. Este é, para já e com algumas lacunas, o resumo de um ano de Netflix. Confirma-se: já raramente ligo a televisão. Daqui a um ano voltamos a falar.

Adenda: Esqueci-me de referir o Love. Mais uma muito boa para procurarem no Netflix. Vem aí a segunda temporada e essa merece binge watching.

A praga das mochilas

O regresso das mochilas é fantástico mas, meus amores, as mochilas ocupam espaço. Sim, por estranho que pareça, quando usam uma mochila o vosso corpo ocupa muito mais espaço. E isto, que parece óbvio, serve para quê? Para vos alertar. Depois de várias cacetadas e empurrões no metro, há que dar voz à indignação. Quando entram nos transportes públicos, tirem as mochilas das costas ou, no mínimo, lembrem-se de que, de cada vez que se mexem, estão a abalroar metade das pessoas ao vosso lado. Um pouco de atenção e tudo corre bem.

Estamos sempre tão fora

Tal como agora se começa, finalmente, a questionar a ditadura dos saltos altos como ícones de beleza feminina - sim, é uma realidade, daqui a cinco anos chega à parvónia - também devíamos usar os neurónios para perceber o quão parvo é criar-se um evento com tanto exagero de participação como de divulgação que se resume a puro consumismo e materialismo. Eu gosto que as pessoas se divirtam, a sério que sim, mas é tão mais estimulante quando o conseguem fazer ao mesmo tempo que usam o cérebro. Fui.

Ou é ou não é

Não há tema que mais tenha abordado neste blog do que a amizade. Falo e reflicto sobre este laço que nos liga aos outros de todos os prismas e com as mais variadas abordagens. Por muito que se possa dizer e, acreditem, é tema sobre o qual se poderiam escrever tratados muito profundos e aborrecidos, a verdade é que, em última análise, há mesmo muito pouco a dizer. A amizade ou existe ou não existe. Se está lá, é tudo. Se não está, dêem-se as voltas que se derem, resume-se sempre a nada. Por isso, se dúvidas do grau de ligação dos teus amigos, esquece. Nem vale a pena pensares muito. É que isto, é como a minha mãe sempre me disse: amigos, há muito poucos. Contam-se pelos dedos de uma mão. A boa notícia? É que são gigantes e suficiente é pouco para o espaço que preenchem.

Mudança de paradigma

Enquanto discutíamos a pertinência das ofertas da Galp, que podiam ser úteis agora que estamos rodeados de incêndios dantescos, a Prio Energy chegou-se à frente e fez o seu próprio gesto de solidariedade. Quando todos apostavam que a resolução dos processos das seguradoras para as centenas de carros que arderam no Festival Andanças se iria arrastar até que a culpa morresse solteira, a Liberty Seguros marcou pela diferença ao assumir parte dos custos de antemão. Depois de nos termos emocionado com o casal que ofereceu água a quem estava há horas parado na autoestrada por causa dos incêndios, a Crown Pier avisa que lhes ofereceu um seguro de vida. O branding e gestão de marca a saber adaptar-se aos novos tempos. É bonito de ver, enquanto ainda não está totalmente subvertido. Que sejam exemplos a seguir.

Senhora da água

Ontem, quando vários carros ficaram retidos na A1 por causa de um incêndio, debaixo de temperaturas que rondaram os 40 graus, surgiu um casal a distribuir garrafas e garrafões de água fresca a quem não podia sair da estrada. «Não, não paga nada», ouve-se a senhora da água dizer num vídeo captado por uma das retidas no trânsito. Quando acabou de distribuir as garrafas, «todas as pessoas de pé e fora dos carros começaram a bater palmas». Não consigo ler isto sem me emocionar.

Um grande bem-haja a quem é de boa-fé. A notícia podem ler aqui.

A primeira vez que o meu mundo ruiu

Eu era boa aluna, sempre fui. O meu caderno servia de exemplo para os inspectores escolares que visitavam a escola primária de tempos a tempos. Esperavam-se grandes coisas dessa menina franzina, pequena e, coisa inacreditável à altura, intolerante ao leite. Embalada neste espírito, cresci com a certeza de podia ser o que quisesse, com a ambição possível de quem vive numa aldeia recentemente elevada a vila, melhor, de quem vive num pequeno lugar dessa pequena aldeia. Nunca me senti realmente integrada e sair dali era a única perspectiva que, em mais dias do que gostaria, me permitia aguentar o bullying dos colegas de turma, uma turma de que fiz parte durante nove longos anos, sem qualquer escapatória possível. Não foi fácil mas aguentei-me e, com a passagem para o décimo ano, o mundo voltou a sorrir. A mudança de turma, a escolha de um agrupamento a pensar numa orientação profissional, os bons resultados escolares a brilharem mais do que nunca: como esquecer o 20 a latim que pôs toda a escola a soletrar o meu nome? Ou os 19 a informática e a português? Como perdoar a professora que considerou que a exposição da minha prova global de português seria perniciosa para mim, numa tentativa de evitar que o sucesso e a vaidade me subisse à cabeça? Foi neste cenário que me entreguei ao estudo para as Provas Nacionais. Eu iria para a Universidade. Ainda ninguém na família tinha seguido esse caminho. Era destemido ousar sonhar tão alto, mas era o primeiro ano de uma reforma escolar que abria as portas do ensino superior até aos filhos pobres das pequenas aldeias. Eu ia ser capaz, tinha de ser. E sim, tive bons resultados, a média estava acima da média do meu agrupamento e aquele 13-quase-14 a latim tinha o mesmo sabor do tal 20 histórico. Tinha o mundo nas minhas mãos e fiz asneira. Concorri apenas para cursos em Lisboa, não tinha possibilidades de arcar com despesas de viagem e alojamento para outras zonas do país, mas a media na capital era muito mais alta. Naquele domingo em Setembro percebi que quase todos os meus colegas tinham sido colocados em algum lado mas a possibilidade de eu ter entrado na Universidade era remota. As notas viam-se em jornais no domingo anterior mas teriam de ser confirmadas em sede distrital própria na segunda-feira seguinte. Nessa manhã, em Leiria, engoli amargamente o 1% que me impediu de entrar na faculdade que pisaria apenas no final de Outubro, já na segunda fase de apuramento. O meu mundo ruiu nessa manhã, pela primeira vez. E foi com amargura que trabalhei numa fábrica de calçado durante o resto do verão, com a certeza de teria de fazer todo o possível para sair daquela realidade mas sem saber se isso estaria ao meu alcance. Foi há 20 anos e, felizmente, não fiquei pela fábrica de sapatos. Fábrica essa que, mau sinal dos tempos, até já fechou.